Terça-feira, 8 de abril de 2008, 13h45. Rua Frei Germano, bairro da Estação. Prédio da antiga Mogiana. Em um dos extremos da construção, em frente a uma loja de tintas, está localizada a farmácia do DRS-8 (Departamento Regional de Saúde), órgão ligado ao governo do Estado, onde medicamentos de alto custo deveriam ser distribuídos, sem grandes tumultos, a pessoas que não têm condições de comprá-los. Mas entrar neste local e sair com o remédio nas mãos significa horas e horas de uma angustiante espera pelo atendimento. O sacrifício se repete, pelo menos, desde janeiro, quando surgiram as primeiras denúncias sobre o problema.
Depois de diversos tumultos e reclamações que chegaram à redação, o Comércio esteve na terça-feira, acompanhando o atendimento, das 13h45 às 16h50. No dia anterior, o atendimento foi negado a algumas pessoas que haviam retirado senhas. Foi necessário chamar a polícia para conter a revolta.
O espaço destinado à farmácia de alto custo é formado por uma pequena ante-sala e uma acanhada e abafada sala de 40 metros quadrados. Juntos, na terça-feira suportavam mais de 40 pessoas, todas ansiosas para que o número de sua senha aparecesse no painel digital. Dois grandes ventiladores não são capazes de amenizar o calor. Encostado na parede, atrapalhando o acesso ao banheiro feminino, um aparelho de ar condicionado, dentro da caixa. O equipamento poderia refrescar o ambiente, mas ainda não foi instalado. E nem existe previsão para isso.
Donas de casa com crianças de colo, senhores de meia-idade que faltam ao trabalho e, principalmente, idosos, são os principais freqüentadores do local. Alguns ficam em pé por falta de onde se sentar. Quem está acomodado chega a cochilar em razão do calor e da demora. Todos esperam a sua vez de serem atendidos. “Todo mês tenho que enfrentar esse martírio. São horas de espera para conseguir ter acesso ao medicamento do qual meu pai que tem colesterol alto depende”, disse uma das mulheres na sala de espera que pediu para não ser identificada.
Para quem precisa de um medicamento fornecido pela farmácia, o primeiro passo é a retirada da senha. É preciso chegar cedo. Como são limitadas a 400 por dia, acabam rapidamente. Na terça-feira, às 11h30, não havia mais distribuição. O local abre às 7 horas, mas, normalmente, antes disso já existem pessoas aguardando.
Chegar cedo não garante o remédio de imediato. Há todo um procedimento burocrático, de análise de prontuário e receita médica, que leva horas. Muitas horas. Quem pega as primeiras senhas torce para ser atendido até o final da manhã. Os que chegam por volta de 8 horas e conhecem a rotina ficam satisfeitos se saírem antes das 17 horas. Por isso, muitos retiram a senha e retornam depois. Foi o que fez a dona de casa Célia Lemes Melo Souza, 40. Ela saiu de sua residência, no Parque Vicente Leporace, no primeiro ônibus do dia, chegou à farmácia com o dia amanhecendo, retirou a senha, mas a demora é grande. “Foi a primeira vez que vim. Na fila mesmo, me disseram que ia demorar, que podia até ir para casa. Foi o que fiz”, disse. De volta a sua residência, Célia fez o almoço e arrumou a filha para ir à escola.
“Voltei para a farmácia por volta de 14 horas, mas só fui atendida, com a senha 758, depois das 16 horas”.
Um detalhe torna ainda mais absurda a situação da dona de casa: como era sua primeira solicitação, Célia foi ao DRS apenas para retirar um formulário, que será levado ao médico, assinado, entregue na farmácia e analisado. Se aceito o pedido, depois de 45 dias, ela encara novamente a espera para retirar, finalmente, o seu medicamento.
Afastada do trabalho de sapateira há três anos por uma depressão, Célia recorreu à farmácia por não ter condições de comprar seus medicamentos. “Eu tomo três tipos de comprimidos, que retirava na farmácia do NGA-16. Mas como lá está faltando e não tenho como comprar, o jeito é vir aqui. Mesmo assim, vou ter de ficar 45 dias sem remédios por causa dessa demora”, disse.
Depois das 16h50, outras 30 pessoas ainda esperavam na fila para serem atendidas.
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