A crise do clima, ou dos gases do efeito estufa, o aquecimento global, evocam muitos outros problemas correlacionados, como o desmatamento da Amazônia e o álcool. Onde há dificuldade, pode-se abrir uma porta de oportunidades. É preciso estar atento.
Nos Estados Unidos da América, o álcool, feito de milho, é caro. Mas isso não os impediu de, apesar de terem começado a produzir há pouco tempo, já nos superar. Já têm mais de cem usinas, produzem 24 bilhões de litros, e outras 74 usinas estão em construção, o que deve mais que dobrar a produção.
Enquanto o barril de petróleo ultrapassa a barreira dos US$ 100,00, as companhias que utilizam gasolina com álcool recebem um incentivo fiscal de 13 centavos por litro do governo norte-americano. A produção de álcool está fazendo o preço dos alimentos subir, diretamente a carne de vaca, porco e frango. E como um quinto da produção de milho é exportada, o preço das tortilhas no México dobraram.
Os agricultores norte-americanos começam a trocar a soja pelo milho. Isso vai provocar um aumento na soja, o que muito nos interessa. Por outro lado, um aumento do preço da soja despertará o interesse em desmatar a Amazônia para se plantar soja. Ao contrário do que muita gente pensa, a cana-de-açúcar não produz no clima úmido da Amazônia. Mas a soja, sim. Não deixa de ser curioso, o álcool americano provocando o desmatamento no Brasil, indiretamente.
Os EUA consomem mais de 500 bilhões de litros de gasolina por ano, pretendem produzir 130 milhões de litros de biocombustíveis até 2017. Essa é uma meta muito ambiciosa, o milho não pode ser plantado em todo o País, o que limita a produção americana em menos de 60 bilhões de litros de álcool. E como não existe tecnologia viável para outras formas de energia renovável ainda... Abre-se uma grande oportunidade para o Brasil, pois produzimos cerca de 20 bilhões de litros de álcool a partir da cana-de-açúcar, a única forma viável de se produzir economicamente combustível, segundo os próprios pesquisadores americanos.
Enquanto os americanos procuram tecnologias para usar a celulose, nós já a temos e podemos usar, temos uma energia que é até desperdiçada. Falo da co-geração de eletricidade usando o bagaço de cana. No Estado de SP, temos 400 usinas, mais de 12.000 MW de potencial, que equivale a nove usinas nucleares de Angra 2. Mais, pode ser gerada no período da seca, melhor ainda, pode-se ganhar créditos de carbono.
Precisamos que a diplomacia brasileira transforme os grupos norte-americanos e europeus em “sócios”, impedindo que comprem nossas usinas de álcool, mas incentivando que abram novas fronteiras. O Brasil usa três milhões de hectares para a cana que produz o álcool, pode chegar a outros 22 milhões. Uma oportunidade para aproveitarmos muito bem. E não podemos esquecer a Europa. O capital externo tem que construir novas usinas e financiar novos fornecedores de cana. E pagando “royalties”.
Mário Eugênio Saturno
Tecnologista sênior do INPE e professor do Instituto de Ensino de Catanduva - SP
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