Remando contra a maré


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Fiz uma consulta ao Sindicato da Indústria de Calçados de Franca para saber quantos, de seus associados, estão produzindo calçados femininos. Seu secretário-executivo, Nelson Barbosa Júnior, afirmou estar em andamento um levantamento que a entidade possa considerar oficial, sobre o tema. Ele me disse que a pesquisa deve ficar pronta em 45 dias e que deverá apontar as empresas que se dedicam à produção de femininos. Entram em conta apenas empresas consideradas formais – legalmente estabelecidas – que sejam completas, isto é, aquelas que dominam e trabalham com todo o processo de produção, do corte à distribuição. Parece perfeito, mas não é. É fato que o Sindifranca não terá a amostragem ideal porque esbarrará em linhas de produção temporárias - quando o industrial adapta-se a produzir femininos por período determinado - e mistas, que produzem masculinos e femininos. Ainda segundo o sindicato patronal, há uma estimativa que aponta 50 empresas, definidas segundo o critério “formal e completa” operando com femininos. Por história e cultura do setor, se “apenas” 50 operam dentro das exigências da pesquisa, outras dezenas – ou centenas de micros e pequenas? – e que constituirão, por exclusão, as informais do segmento, farão cair por terra os resultados oficiais que são, finalmente, buscados. “Finalmente”? Sim e é aí que está. Falta informação. O setor calçadista deveria tê-la na tecla de computador para tomar decisões estratégicas, mas não dá muita bola para isso. Decisões neste segmento ou em qualquer outro, são díspares. Ora são os critérios de corte das pesquisas, ora é o descompromisso com a necessidade de atualizar regularmente os bancos de dados ou a inexistência de ferramentas de unificação de linguagens e de números as entidades mais representativas do setor. Às vezes, as falas são similares, mas assumem outros contextos. Os exemplos são fáceis. Se existem 50 empresas produzindo femininos e, certamente, uma legião de informais fazendo o mesmo, seria o caso de treinar mão-de-obra especializada a este novo nicho. Pergunta de uma resposta só: sim. Mas isso não acontece. Não existe ainda qualquer curso formador de mão-de-obra neste segmento de produção no Senai (Serviço Nacional de Aprendizado Industrial) de Franca, segundo me garantiu Wagner Lopes Munhós, coordenador técnico da unidade. “Não existem dados oficiais que demonstrem a necessidade real de criação e manutenção de cursos voltados à produção de femininos. Para a implantação de um curso destes, precisamos mais que solicitações individuais. Temos visto o crescimento do mercado feminino na cidade, mas ainda é pequena a procura dos empresários. A existente ainda não justifica uma estrutura voltada especificamente a este segmento”. Há quantos anos Franca possui indústrias que produzem calçados femininos? Franca continua remando contra a maré, negando especializações que podem modificar crises. O mercado é vivo, pulsante e muito rápido. A indústria também tem que ser. Suas representações, idem. Encerro com dois comentários feitos a mim por representante de calçados da capital do Estado, que compra calçados femininos... em Franca há anos (!!!): “A cidade tem tudo para crescer no segmento: fornecedores de qualidade, parque industrial formatado, forte indústria cortumeira... mas peca pela qualidade da mão-de-obra de montagem e, principalmente, acabamento. Pena, pois a tradição calçadista local, somada à fidelidade que os industriais mantêm junto a seus representantes e lojistas a colocam em posição mais atraente que o parque de Jaú”. Pena mesmo! ENQUANTO ISSO... Segundo a Assintecal (Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos), dados levantados pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Jaú (SP) indicam que a indústria calçadista é a que mais gera empregos formais na cidade. São 52,14% das vagas. A pesquisa teve como fonte dados do Posto de Atendimento ao Trabalhador (PAT) referente ao período de janeiro a março deste ano. Os números ajudam o município a se preparar para a qualificação de mão-de-obra. No setor calçadista, o levantamento concluiu que hoje já existem cursos técnicos de qualificação. No entanto, o mesmo não ocorre em outros setores. Em Franca ocorre o oposto. Este Comércio divulgou no último sábado que, a partir de projeção feita com base nos dados do Seade (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados) pelo Ipes (Instituto de Pesquisas Sociais e Econômicas) do Uni-Facef (Centro Universitário de Franca), a geração de empregos no setor comercial local deve ultrapassar a indústria daqui a apenas 11 anos se continuar a atual tendência. PRODUTO CHINÊS ERA MAIS BARATO Na China, nova lei trabalhista, aliada aos preços de commodities e energia e ao cancelamento, por Pequim, de políticas preferenciais para exportadores, está prejudicando os industriais de calçados. A valorização da moeda tornou mínimas as margens, levou milhares de fabricantes para a beira da falência e pôs em risco o papel da China como o maior exportador de produtos baratos. A Federação das Indústrias de Hong Kong prevê que 10% de estimadas 60 mil a 70 mil fábricas controladas por Hong Kong no delta do Rio da Pérola cessarão suas atividades neste ano. Nos últimos 12 meses, 150 fábricas de calçados ou fornecedoras dos calçadistas fecharam as portas em Dongguan, segundo afirmou a Associação de Calçadistas Asiáticos. As autoridades econômicas chinesas não estão preocupadas. O encerramento de atividades está atingindo os exportadores que geram muita poluição e que usam energia ineficientemente. De acordo com a Câmara Americana chinesa, o passo seguinte é inevitável: “haverá um aumento nos preços de calçados e têxteis, entre outros”. Alexandre P. Fischer, publicitário, integra a equipe de Design Gráfico do Comércio. Responde interinamente pela coluna.

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