Se para tudo na vida houvesse uma lista de dicas de como agir certo e do que é errado, das duas uma: ou ninguém seguiria coisa alguma ou todos seriam meros “robozinhos”, levando uma vida absolutamente metódica. Algo como: “se você desconfia que o seu chefe não está satisfeito contigo, vá até a página 256 e leia as “dez dicas para fazer com que o seu chefe fique satisfeito contigo’”. Óbvio que isso poderia tornar mais fácil a vida de grande parte dos habitantes do planeta Terra... Imagine então encontrar todas as soluções para os seus imbróglios amorosos.
“Para encontrar seu pa ideal siga todos os passos indicados na página 489”. E para ter uma carreira profissional brilhante? “Leia tudo o que está escrito no capítulo XXIII e em menos de um mês o seu salário seria multiplicado por nove e a sua sala passará a contar com uma cadeira super mega plus - confortável, tapete persa e ar condicionado com botão “nevar’”.
Não faltaria pelo mundo afora gente de todo tipo pegando carona no certo sucesso do provável best seller e ganhando a vida com palestras, workshops, entrevistas ou comercializando traduções, interpretações e versões simplificadas da obra. Prático, engraçado, mas assustador e absurdo, não é? Pois bem, o fato é que praticamente tudo isso já existe, em milhares de livros de auto-ajuda espalhados por aí. Falta apenas compilar em uma versão única do tipo “Manual da Vida”.
É fácil de comprovar. As prateleiras das livrarias e bancas estão recheadas de “obras” que prometem ajudar o leitor a resolver os mais intrigantes possíveis problemas. Há desde Manual do Mané: Guia de Auto-Ajuda Para o Homem que Vacila, passando por Como Ser Feliz no Emprego Sem Gostar Dele, Os Segredos da Mente Milionária - Aprenda a Enriquecer Mudando seus Conceitos Sobre o Dinheiro, até (muitas vezes pretensiosas, talvez utópicas) soluções para ser feliz em títulos diretos como Como Ser Feliz Apesar de Tudo. Para alguns, os títulos servem para fazer pensar em questões como: “as pessoas realmente seguem o que tais livros mandam?”, “ao menos questionam que cada um tem a sua individualidade e, claro, os problemas também são individuais e exclusivos?”, “alguém, de fato, acredita que basta seguir algumas dicas que a felicidade baterá a sua porta (se bobear chamará o seu nome) ou que o passo a passo para encontrar o amor da vida realmente pode estar na página 48.975?”.
Este grupo de pessoas normalmente acredita que a maioria dos leitores de livros de auto-ajuda tem um pensamento coletivo do tipo “já que está tudo ferrado mesmo, vou ler essa coisa para me convencer de que tem mais gente tão ferrado quanto eu e assim me sentir mais normal”.
A estudante Tatiana Alípio, 24, integra este grupo. Bem-humorado, o marceneiro Alessandro Corrêa, 19, disse acreditar que os livros de auto-ajuda são para “pirados”. “Para mim, quem procura resolver a vida nesses livros não bate bem das idéias. Uma cervejinha com os amigos no fim do dia resolve muito mais. E outra: sou superotimista, para quê vou ler palavras de otimismo?”, afirmou.
Já para outra corrente, tais obras podem ajudar a levar a vida com mais tranqüilidade e entendimento. “Sempre encontro uma palavra de consolo nos livros de auto-ajuda. É incrível como parece que sempre abro na página certa. Leio o que preciso naquele momento”, disse a balconista Joana Maria Aguilar, 23.
A psicóloga Débora Garcia, 24, diz que os livros de auto-ajuda são ilusórios quando apresentam fórmulas prontas para o sucesso ou a felicidade. “Enquanto dica, até pode ser válido, mas não como solução de problemas reais. Uma pessoa com depressão, por exemplo, ao ler um livro do tipo Passos Para Ser Feliz, corre o risco de se sentir frustrada, pois não terá o seu problema resolvido”, afirmou Débora.
Na opinião dela, tais livros apresentam uma abordagem geral dos temas. “Entretanto, os problemas são particulares. Nenhum livro será específico. Portanto, enquanto informação e dica pode ser válido. Mas nunca como instrumento de tratamento, sem que tenha o acompanhamento de um profissional”, completou.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.