Alfredo Palermo escreveu mais de 2.600 Gazetilhas. Até domingo passado, quando se despediu de nós, leitores.
Foi num distante 16 de fevereiro de 1930 que, pela primeira vez, o Comércio publicou uma coluna com o nome de Gazetilha. Era domingo e, muito provavelmente, o texto foi escrito por Antônio Constantino, redator-chefe e um dos mais brilhantes e combativos homens que emprestaram seu talento ao jornal. É impressionante como o texto, cravado na contracapa do modesto jornal de seis páginas, mantém-se atual 78 anos depois. “Segunda-feira passada a cidade ficou às escuras até a meia noite, só porque caiu uma chuva mais grossa durante o dia. Resultado da péssima administração da Companhia Francana de Eletricidade (...) Hoje, a Companhia é um saco de gatos que chegou ao cúmulo de, imprevidentemente, deixar a cidade às escuras, com sérios prejuízos para os consumidores (...) e indústrias”. Impossível dizer que o cenário descrito na primeira coluna seja coisa do passado.
A Gazetilha dos primeiros tempos não se restringia a um assunto só, não era assinada nem publicada com periodicidade definida. O único padrão mantido nas colunas desta primeira fase é o tom ácido do texto, a crítica aguda. Mérito de Constantino, o jornalista contundente que, dois anos depois, entraria para a história como o orador inflamado que defendeu o quanto pôde São Paulo na Revolução Constitucionalista de 1932.
A saída de Constantino do Comércio transforma a coluna numa colcha de retalhos. Passa-se a publicar, sob o nome de Gazetilha, qualquer informação que, aparentemente, havia sobrado do processo de edição do jornal. Apesar dos esforços de Breno Molina, supervisor de nosso Centro de Documentação que muito me ajudou neste pequeno resgate da história da coluna, há pouco a considerar sobre as Gazetilhas pós-Constantino.
Pelo menos, até 1959, quando o professor Alfredo Palermo passa a assinar a coluna. Na sua estréia, Palermo comenta o filme Sayonara, estrelado por Marlon Brando. Além das qualidades técnicas e artísticas, o uso do cinema como política de governo e as mudanças de mentalidade no mundo do pós-guerra são apontados com elegância e sutileza.
De lá para cá, os leitores do Comércio foram brindados com pelo menos outras 2.600 Gazetilhas escritas por Alfredo Palermo - a conta exata é, obviamente, impossível. Em suas colunas - publicadas praticamente todas as semanas a partir de 1959 e sempre aos domingos desde 1966 - o professor Palermo discorreu sobre política e economia. Fez considerações a res-peito de disputas eleitorais no município, criticou os escândalos de corrupção do país, apresentou teorias do Direito, resgatou nomes perdidos na história, comemorou títulos no Basquete e dividiu com os torcedores as agruras da Francana. Sobre quase tudo escreveu o mestre. Até domingo passado, 30 de março, quando se despediu de nós, seus leitores. Aos 91 anos, 49 anos depois de assinar a primeira Gazetilha.
A partir de hoje, estarei aqui. Não me arvoro substituto do mestre Alfredo Palermo. Seria irresponsabilidade. Professor (sua mais importante profissão, como sempre enalteceu), advogado, jornalista, historiador, escritor, Alfredo Palermo é dessas inteligências capazes de fazer tudo, sempre bem. Destacou-se na vida acadêmica, como jurista, no jornalismo, como autor de livros (sejam eles de ficção, poesia, didáticos, jurídicos). Até deputado foi, embora poucas vezes faça menção ao fato.
Não tenho os títulos nem o talento de Alfredo Palermo. Tampouco a verve e visão de futuro do grande Antônio Constantino. Sou apenas um jornalista, que nunca exerceu outra função que não o ofício de fazer jornalismo. Pretendo dividir com os prováveis leitores deste espaço - como estabelecido pelo professor Palermo em sua derradeira coluna - minha opinião sobre os fatos, o cotidiano, o mundo que nos cerca.
Muito obrigado, mestre Palermo. E aos que me lêem, paciência.
CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca
jrneves@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.