Se o professor Pasquale Cipro Neto, conhecido apresentador de TV em cujos programas aborda aspectos da língua portuguesa, desse uma volta por Franca, ficaria chocado. Erros de ortografia e gramática que ‘assassinam’ o dicionário estão espalhados por todos os lados.
Durante duas horas, a reportagem percorreu diferentes pontos da cidade e flagrou diversas incorreções.
Das mais chocantes às mais corriqueiras, encontra-se tudo: “dupra sertaneja”, “sesta” (dia da semana), moto-taxi (em vez de mototáxi) e “pédecure”. Problemas de concordâncias verbal e nominal, acentuações incorretas e erros de grafia são os mais freqüentes.
De bairros da periferia à região central, onde, e tão-somente, teoricamente se deveria errar menos, a Flor do Lácio vai barbaramente sendo esmagada e ignorada.
A falta de acentuação é quase geral em palavras que requerem os acentos agudo ou circunflexo. Os erros à mostra refletem um déficit na aprendizagem. Segundo dados do Seade (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados), o índice de analfabetismo em Franca é de 5,63%. O último levantamento realizado foi em 2000.
Talvez, por causa disso, seja possível encontrar a palavra “aluguél” escrita na traseira de um caminhão de transporte de aluguel, que trafegava na Avenida César Martins Pirajá, no Aeroporto. Nesse caso, a presença do acento agudo é dispensável.
O dono do caminhão, o motorista EBS, 45, disse que foi um colega que pintou. Mas ele assumiu que não sabia que estava escrito errado. “Não percebi o erro. Ninguém veio me falar. Mas não tem problema, o importante é que dê para entender o que está escrito”.
O caminhoneiro interrompeu os estudos na 3ª série do Ensino Fundamental e, no momento, não pretende retornar à escola. “É muito difícil. Tem que trabalhar, ‘né’?”.
Outro local em que é fácil ser encontrado algum erro de ortografia são as fachadas de supermercados. De dez estabelecimentos observados, oito haviam escrito a frase “entregas a domicílio”, sendo que o correto é entregas em domicílio. Em um varejão, o responsável, MRS, só foi notar o problema quando questionado pela reportagem.
“Realmente está errado, mas é tão normal ver essa frase escrita assim, que a gente se acostuma”, disse, mostrando a sacola do estabelecimento com a preposição correta. “Está vendo? Aqui está certa!”.
A língua portuguesa tem inúmeras regras de acentuação, ortografia, sintaxe, figuras de linguagem, exceções e na maioria das vezes confunde os desatentos, que trocam ç com ss ou z com s.
É o caso, por exemplo, de uma loja no City Petrópolis. A dona do estabelecimento permitiu que no letreiro fosse escrito “artezanato”, que deveria ser grafado com “s”. “Quando percebi o erro, falei para minha patroa que providenciou que o incidente fosse corrigido”, disse a vendedora RAC.
Apesar de tantas regras e exceções, Everton de Paula, professor, escritor e fundador e membro da Academia Francana de Letras, disse que o português não é um idioma difícil, como muitos pregam.
Segundo ele, o fato de as pessoas não escreverem corretamente se deve à falta do hábito da leitura. “A maioria das pessoas não lê mais clássicos. Está havendo uma despreocupação com a língua, inclusive pelo próprio MEC (Ministério da Educação), que não fiscaliza o ensino como se deveria”.
Éverton disse ainda que os órgãos competentes deveriam fiscalizar estes erros. “Como isto não é feito, as pessoas se acomodam, e o vocabulário delas piora cada vez mais”.
A secretária de Educação de Franca, Leila Haddad, disse que é necessário atentar às formas gramaticais para não cometer erros.
“As incoerências encontradas são primárias, fruto de uma educação deficiente. Quem comete estes erros apresenta um déficit na aprendizagem e precisa de orientação educacional. E só se escreve corretamente quem pratica a leitura e a oralidade”.
Haddad ainda ressaltou que a secretaria está reforçando a aprendizagem de português nas primeiras séries de ensino. “O trabalho é interdisciplinar, mas o foco é a alfabetização dos alunos de primeira e segunda séries do ensino fundamental, com atividades voltadas à língua portuguesa”.
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