<p>Uma vida de trabalho, com impostos em dia, e, no final, quando precisou bater à porta da saúde pública, encontrou o descaso. O início desta história, provavelmente, fará com que muitas pessoas relembrem situações parecidas. Esta, porém, teve como principal personagem o aposentado Eugênio Meleti, 83 anos, que morreu na madrugada de sexta-feira após ficar 35 horas internado. Sua idade e todos os problemas de saúde advindos com o passar dos anos não foram suficientes para que o senhor conseguisse uma internação. Sofrendo, com o diagnóstico de pneumonia, ele esperou quase três dias para se internar e só conseguiu a vaga após seu filho, o sapateiro Benedito Meleti, 43, pedir socorro ao radialista e vereador Marcelo Valim (PSDB). “Liguei no celular dele (Valim) à meia-noite. Estava desesperado”. Indignado com a situação, Benedito quis desabafar. Reclamou do jogo de empurra entre Pronto-socorro “Dr. Janjão” e Santa Casa e da falta de respeito com seu pai, idoso, que acabou morrendo. Em entrevista ao Comércio, Benedito disse que não recorrerá à Justiça, mas pediu espaço para mostrar que a saúde pública não tem respeitado os idosos. “Espero que essa situação não se repita com outras pessoas. Meu pai, com quase 84 anos, nunca precisou de médico e, no dia que precisou, ninguém o atendeu”, desabafou. </p><p><br />O presidente da Santa Casa, José Cândido Chimionato, foi procurado na noite de sexta-feira para falar sobre o caso do idoso e dos procedimentos de internação no hospital. Seu telefone celular e residencial chamaram, mas ninguém atendeu. O diretor-hospitalar da Santa Casa, Marcelo de Paula Lima, estava com o telefone desligado. A assessora de marketing do hospital, Lila Crespo, também foi procurada, mas não atendeu às ligações.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - Quais eram os problemas de saúde de seu pai?<br />Benedito Meleti -</strong> Todos. Na idade que ele estava, todas as doenças que acometem esta idade, ele tinha. Mas nós não sabíamos exatamente o que era. Precisava fazer os exames necessários, diagnosticar e tratar. Ele até chegou a fazer alguns exames no domingo passado, mas um médico (do Pronto-socorro “Dr. Janjão”) disse que ele poderia ficar em casa tomando os remédios. Ele estava com pneumonia e os remédios não fizeram efeito. Fomos à UBS (Unidade Básica de Saúde), mas marcaram a consulta apenas para o dia 15 de abril, mesmo ele tendo 83 anos de idade. Tivemos que levá-lo ao pronto-socorro, de novo, na terça-feira, porque não dava tempo de esperar.</p><p><br /><strong>Comércio - E qual foi a avaliação do médico?<br />Benedito -</strong> O médico disse que o estado dele não era bom e que precisaria de interná-lo. Mas ele mesmo (o médico) confirmou que estava complicada e quase impossível uma internação na Santa Casa. O profissional disse que iria tentar dar um retorno para a gente assim que conseguisse. Meu pai ficou na maca, no “Janjão”, esperando. Como esse retorno nunca chegava, fomos (os filhos) buscar resposta. Foi então que disseram que não havia vaga na Santa Casa. No PS fizeram o possível, acredito, mas ali não tinha equipamentos sofisticados o suficiente para resolver o problema dele.</p><p><br /><strong>Comércio - Vocês viveram um drama...<br />Benedito -</strong> Sim. Esperei na terça-feira até meia-noite. Quando não deu mais para vê-lo naquele estado, me desesperei e decidi buscar ajuda. Foi quando eu liguei para o Valim, acordei ele, e pedi socorro. Ele ligou na Santa Casa e lá disseram que não havia nenhum pedido de internação. Mas havia sim. O pessoal do PS me mostrou o pedido e a resposta do hospital (por fax), onde diziam que no quadro dele não havia necessidade de uma internação. Assim que o Valim se colocou à frente da situação, aí sim, internaram meu pai. Isso já era madrugada de quarta, 3 horas da manhã. Até esse horário, ele (o pai) ficou penando no PS. Foi um tal de vai fax volta fax e outro falando que não mandou nada, enfim. </p><p><br /><strong>Comércio - Quando seu pai morreu e qual foi o laudo do médico?<br />Benedito -</strong> Ele morreu 35 horas depois de ser internado, às 2 horas da madrugada de sexta-feira. Foi sepultado às 17 horas. No laudo colocaram pneumonia.</p><p><br /><strong>Comércio - Você acha que seu pai poderia estar vivo?<br />Benedito - </strong>Não sei. Não tem como responder. Às vezes se tivessem visto com mais cuidado, talvez não tivesse acontecido, agora não tem jeito de fazer mais nada. Talvez, esse não seja esse o motivo da morte dele. Mas ficamos indignados com a demora no tratamento, foi uma falta de respeito. Se tivessem atendido ele no momento certo eu não estaria reclamando de nada. Ele pode não ter morrido de negligência, mas quem olhou por ele? Cadê o respeito pela vida <br />dele?</p><p><br /><strong>Comércio - A revolta, então, é justamente pela não-internação?<br />Benedito -</strong> Sim. Pela idade do meu pai e pelo tempo que ele trabalhou, sempre no mesmo lugar, pagou impostos, nunca precisou de médico e, quando precisou, teve essa resposta. A família ficou indignada, mas não pôde fazer nada. Espero que isso não aconteça com outras pessoas. Que este caso sirva de exemplo para que não deixem mais nenhum idoso esperando por uma internação. </p><p><br /><strong>Comércio - Ele chegou a reclamar de dores, de estar sofrendo?<br />Benedito - </strong>Ele não reclamava. Às vezes, sentia dor nos movimentos que fazia, mas não reclamava. Dizia que não queria viver mais. Não queria ir ao médico, estava se entregando à doença, à idade. Mas tínhamos que levá-lo para tratamento e, infelizmente, tivemos essa resposta do hospital e todas as dificuldades para interná-lo que você já sabe.</p><p><br /><strong>Comércio - Você pretende denunciar esse caso à Justiça?<br />Benedito - </strong>Olha, sinto muito pela morte dele, mas isso só se alguém da família quiser. Eu não pretendo. Acho que não iria adiantar para nós mais. Mas acho que serve de alerta para que não aconteça com outros idosos, outros doentes. Com meu pai foi um descaso, uma falta de respeito, ele deveria ser tratado como ser humano que era, mas não foi isso que aconteceu. Não vou denunciar ninguém, brigar com ninguém, mas essa é nossa saúde. Vamos deixar que Deus faça justiça e alguém pague se estiver errado.</p><p><br /><strong>Comércio - Como era o relacionamento com seu pai?<br />Benedito -</strong> Meu pai tinha um sistema antigo. Às vezes eu chegava e ele estava bem; outra hora ele já estava nervoso. Mas, ultimamente, estávamos muito bem, não tenho do que me queixar. Meu pai foi honesto, trabalhador. Não sabia sequer o que era polícia. Foi um cidadão excelente. Deixou um bom exemplo para os filhos. <br /></p>
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