Hábito


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O hábito faz o monge? Depende. Se se refere ao traje, vestimenta, não, pois nessa qualidade serve apenas para distinguir a pessoa externamente, visualmente. Não dá os atributos necessários ao bom desempenho da função. Não é na roupa que está a aptidão. A toga não faz o juiz, a batina não faz o padre, a farda não faz o militar, a calça não faz o homem, etc. A essência do ser vai muito além daquilo que lhe cobre o corpo. Assim, fico com o provérbio português que diz que o hábito não faz o monge, só o faz parecer de longe. Mas “hábito” também é a “disposição adquirida por atos reiterados” (Dicionário Michaelis), e neste sentido o conjunto de hábitos molda sim a pessoa. Quem se expressa bem, com clareza e conhecimento, deixa evidente o hábito da leitura. O hábito se cria com a repetição, a reiteração, a obstinação. Com isso se adquire a naturalidade. O que é difícil de fazer, cansativo, torna-se prazeroso. Há quem diga que não gosta de ler porque não consegue ficar parado. Considerando que vida é ação, movimento, energia, ficar parado não é mesmo aconselhável. Entretanto, ler não é ficar parado: é mexer os neurônios, é exercitar o cérebro, o que é tão necessário quanto o exercício físico. Aliás, uma vez que o cérebro comanda o corpo, é com a ativação da função cerebral que se adquire disposição para a atividade física. Se tudo é questão de hábito, melhorar a si mesmo e colher os frutos disso requer mudança de hábitos. O que deve encorajar a adoção de bons hábitos são seus benefícios; por outro lado, os malefícios precisam servir de estímulo ao abandono dos vícios. Médicos e nutricionistas dizem que para alcançar o peso ideal não adianta fazer regime e sim mudar os hábitos alimentares. Quem está fora do peso, em regra, é porque se alimenta errado. O sedentarismo se combate com a atividade física. Criando-se o hábito, a ginástica deixa de ser aquela coisa chata. Se a gente não está se dando bem com o mundo e com a vida, o problema provavelmente não é a vida nem o mundo: é a gente. É sinal de que é preciso rever hábitos. Para isso é fundamental dar o primeiro passo, vencer a inércia, adquirir dinamismo, concentrar-se no que faz, ter interesse, mergulhar de cabeça nos objetivos. Viver verdadeiramente requer entusiasmo, vontade. Fazer o que parecia impossível, movido pelo próprio esforço, traz enorme satisfação, bem-estar, aumento da auto-estima. A vida ganha um novo colorido quando a gente se dispõe a enfrentar os desafios, empenha-se, não perde tempo pensando no fracasso. Não dá para vencer sempre, mas é a luta que dignifica. A saúde física e mental exige bons hábitos. Assim como os braços e as pernas se atrofiam com a imobilidade, a falta de uso, o mesmo ocorre com os sentimentos, com as funções cerebrais. Deve-se criar o hábito de ler, de aprender, de refletir, de exercitar-se, de respeitar regras, de ser educado, de falar a verdade, de sorrir, de pensar positivo, de ter motivação, de agradecer. Por outro lado, é necessário livrar-se de certos hábitos nocivos por ter a noção de quão sem propósito eles são, pois só fazem sugar a nossa energia vital. Portanto, nada de: irritar-se com coisas banais, perder tempo com futilidades, drogar-se, reclamar o tempo todo, sentir-se inferior. Viver é precioso. É irracional tirar a beleza da vida fazendo coisas sem sentido. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça, autor do livro Pensando na Vida (disponível na Livraria Martins). E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br

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