Há quase um ano, o Comércio da Franca vem publicando necrológios, histórias de vida de pessoas comuns, mais conhecidas ou não, mosaicos da história maior, a da própria cidade.
O assunto é interessante. Há pesquisas que atestam que após uma certa idade, logo que pegam o jornal do dia os leitores consultam imediatamente a página dos mortos. A motivação é previsível: podem estar lá amigos ou conhecidos, gente da mesma geração ou do círculo de relacionamento, ou de conhecimento social.
Dia destes, uma senhora, assinante do Comércio, reclamou com insistência sobre demora na chegada de jornal do dia – chovia e os entregadores, em motos, tentavam defender como podiam os exemplares e isso gerava atrasos – e não se incomodou em dizer à moça da assinatura que “não podia nem pensar em perder algum velório de gente amiga, senão o que iriam dizer dela...”.
Quando acham alguém, após a surpresa vem a inquietação sobre os motivos da aparição do conhecido na página fúnebre: “Estava doente? Meus Deus! O que será que houve?”. A Editoria de Opinião, que coordeno, aceitou o desafio proposto pela gestão do jornal – se bem que meio a contragosto –, para “publicar ao menos um necrológio ao dia”. Os primeiros textos foram “paridos” com dor no coração. Aliás, não há como permanecer no frio exercício do jornalismo (Ah! você, que me lê, não sabia que isso também é jornalismo? É. E é jornalismo histórico, que visa preservar a história da cidade através de registros da vida de seus cidadãos) quando conversamos com a família, na maioria das vezes no exato instante do sepultamento.
A gente passa a entender melhor o sentimento de perda física, e consegue amealhar, para o texto jornalístico, um pouco de emoção.
E mais: é preciso retratar o indíviduo e contar o que o levou a morrer. Não há, a rigor, nenhum leitor que não queira saber o que levou o extinto do convívio dos vivos. E isso não configura tara. É curiosidade mesmo. Coisa intrínseca do ser humano.
E não há, também, ninguém que não se emocione ao conhecer detalhes da vida de quem já partiu. Mesmo sobre aqueles ou aquelas de quem não gostava. A morte arrefece as animosidades, enternece corações, contesta sismas. Afirmo que, em todas as histórias, mesmo dos homens e mulheres mais duros, há momentos de intensa emoção, há instantes em que a arrogância, a ganância e todos os outros males da essência humana se tornam nada, porque se tem consciência da relatividade da vida e isso, iguala. Ninguém passa incólume pela vida. Cada um de nós causa profundas transformações no meio ambiente, na vida dos outros. Os necrológios clarificam isso. Não há mais como melhorar ou piorar nada.
Tenho sido surpreendido por pessoas que sempre considerei incapazes de expressar emoções, ligando para agradecer “as lindas palavras escritas para meu familiar”, em meio a crises de choro.
E, posso afirmar, não há lindas palavras em necrológios, a não ser que sejam mentirosos: o texto é frio, jornalístico, rápido, objetivo. Na maioria das vezes, é igual, mas as pessoas não percebem. Garantem que há diferenças: quem escreveu conhecia mais este cidadão do que aquele. Afirmo novamente: não há diferenças. A única gota emocional dos textos vem dos familiares, que recordam virtudes e deficiências de quem partiu; mas tudo se torna terno, reconhecido.
É isso. O Comércio reafirma seu compromisso com a publicação de necrológios porque isso ajuda a registrar a história da cidade. E tem a satisfação de registrar – se bem que isso possa soar estranho – que a página “dos mortos” se torna, devagar, seção não mais consultada com medo, receio, tristeza e sim, com curiosidade.
Outra mudança de comportamento. A morte, aliás, para católicos, espíritas e praticantes de outras vertentes religiosas, não é um fim, mas um reinício. E isso é bom.
NEW YORK TIMES
Um dos mais importantes jornais do mundo, o americano New York Times, publicou recentemente uma coletânea de necrológios. A publicação alcançou sucesso. E mais: mantém, em arquivo, textos sobre personalidades muito conhecidas de todo o mundo, produzidos para a ocasião da morte de seus retratados. Isso, segundo a Editoria de Necrológios da publicação, permitirá ganho de tempo de edição e construção de textos na ocasião em que, efetivamente, as mortes ocorrerem.
FILOSOFIA
Perguntam-me sobre o critério do processo de escolha de nomes para a produção de necrológios. Não há. O jornal não privilegia grandes ou pequenos, pobres ou ricos. A escolha é aleatória e pertence ao editor. Quando gente conhecida morre, há uma natural decisão editorial em retratar. Os personagens não tão conhecidos merecem a mesma decisão: há histórias muito poderosas vividas por gente simples.
E, POR ÚLTIMO
Há quem diga que o assunto de hoje é tétrico e seria desnecessário ocupar o espaço desta coluna com algo tão dispensável. Falo então, de objetivos: este Comércio tem dedicado sua vida a retratar a história da cidade. Em junho, este jornal completará 93 anos de vida ininterrupta e, em suas páginas, está contida a história factual de quase um século francano. Em muitos dos casos, registrou o nascimento de pessoas em suas colunas – assinadas pela primeira cronista social local, Sônia Luz Hlibicka, passando pelas Notas Sociais de Octávio Cilurzo e outros redatores, teve Patrícia, Augusta Maria Pinho Caleiro e hoje tem Higininho – e, décadas após, publica suas notas de falecimento . É isso. Todos passamos.
Cabe a um jornal comprometido com a comunidade à qual serve, permanecer. E registrar. Mesmo que doa ou que não seja bem compreendido. A memória agradece.
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