Menos de vinte e quatro horas depois do meu último texto sobre o desaparecimento do Francenildo a comunidade política brasileira, graças a Deus, deu notícias sobre ele. Disseram que depois da tal abdução ele recebeu o nome de Erenice, e que andava circulando pelos felpudos carpetes da Casa Civil.
Não foi só o Francenildo que mudou de nome. A prova dos nove também não se chama mais dossiê. Na versão atual é conhecida como banco de dados. Fizeram como aquele cara que sofria de hemorróidas e para não dizer o nome feio de onde ficava sua doença resolveu chamar pelo apelido de ânus o órgão afetado.
No Brasil é assim, imposto vira contribuição, corrupção ativa chama lobby, distribuição de esmola vira projeto de desenvolvimento social. A gente adora um apelido.
Por conta da rapidez com que encontraram o Francenildo estou abrindo uma barraquinha para fazer previsões sobre o futuro das pessoas, tipo Pai Alexandre, ou algo parecido. O importante é antecipar o fato, ou como se diz em linguagem jornalística, furar o concorrente.
Por falar em adivinhações, a história do terceiro mandato toma cada dia mais forma e força. O que antes era apenas um boato já virou discurso no plenário da Câmara dos Deputados e agora até o vice-presidente resolveu falar disso: ‘tenho certeza que o povo brasileiro quer Lula mais tempo no governo’. Como assim, tenho certeza?
Para falar a verdade, eu não tenho mais dúvidas: o povo quer Lula mais tempo no governo. E mais: há ambiente político para essa tentativa. Você duvida? Então vejamos.
Quem tem cacife para ganhar uma eleição majoritária em 2010 como candidato a presidente da República a não ser Lula? A oposição se mata sozinha, deixa escapar por entre os dedos oportunidades de degolar o governo talvez porque tenha mais rabo que cérebro, ou talvez porque sobre o rabo repouse o peso de tanto tempo fazendo política de fundo de quintal.
O fato é que Lula e o governo sabem que não tem ninguém com competência e moral pública para derrotá-lo. Os discursos dele nos palanques do PAC são uma versão politizada daquela famosa brincadeira de criança: ‘a oposição não é de nada; é pura marmelada...’
Olhemos por exemplo a situação de Minas Gerais. Afinal de contas o Aécio é da oposição ou da base governista de Lula? Não é possível o que está acontecendo pelas Gerais. Tancredo deve estar de bruços no túmulo. O que era paquera virou namoro e o noivado já está sendo organizado.
Todos dizem que governo e a oposição são ferrenhos opositores, mas me responda no quê? Em que aspectos PT, DEM e PSDB são diametralmente diferentes? Me apresente meia dúzia de diferenças práticas, lógicas e principalmente legítimas e eu me convenço de que no Brasil há um governo e uma oposição e que ambos trabalham para o bem comum do povo brasileiro.
Enquanto não me convencem, vamos arrumar um apelido para o esquema que vai viabilizar o terceiro mandato. Afinal de contas ninguém vai querer chamar isso de golpe. E não é mesmo! Não fica bem para o Brasil! É por isso que eu digo que cada um tem hemorróidas onde pode.
ALEXANDRE HENRIQUE LEONEL é farmacêutico e integra o Conselho de Leitores do Comércio da Franca
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