Com bonés ou capacetes, panos sobre pescoço e ombros, blusas de manga comprida para proteger do sol e muito suor para erguer prédios. Vestidos assim e num ritmo acelerado de trabalho, milhares de trabalhadores transformam canteiros de obras na cidade em verdadeiros exércitos de pedreiros, serventes, carpinteiros e ferreiros. Dados da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), apontam que, em 2006, a construção civil tinha 1.317 trabalhadores empregados e que o setor gera 114 vagas, em média, por ano. Os profissionais trabalham em média dez horas por dia e geralmente aos fins de semana e ganham entre R$ 600 e R$ 2 mil.
Os canteiros de obras são locais de trabalho para pessoas da própria cidade e de outras regiões do País. A MVG Engenharia é responsável pela construção do novo campus da Unesp, um empreendimento de R$ 11,5 milhões. A empresa é de Guarulhos, mas dos 120 profissionais contratados, apenas seis são de outras cidades. Os moradores de Franca dominam a mão-de-obra no local.
São 114 pedreiros, serventes, carpinteiros, armadores e encarregados da cidade. “Os profissionais de fora construíram a Febem de Taquaritinga. A MVG elegeu os melhores e os contratou para atuar em Franca”, disse Carlos Rodrigues, estagiário de engenharia civil que acompanha a rotina no canteiro de obras da universidade. O empreendimento entregue em junho de 2008.
O “boom” na construção civil em Franca é sinônimo de emprego e realização de projetos. O ajudante-geral Valdete Campos, morador no Jardim Vera Cruz II, estava desempregado, mas há um ano e cinco meses foi contratado como vigia do novo campus. “Fazia três meses que estava desempregado. Foi muito bom voltar a trabalhar e ter salário”, disse.
Valdete ganha cerca de R$ 650 por mês. A mulher dele e três filhos trabalham. Com a renda, foi possível renovar os aparelhos eletrônicos e “recauchutar” seu carro. “Arrumei meu ‘fuscão’ (ano 72) que estava com a parte elétrica destruída, comprei aparelho DVD e televisão 29” para assistir aos jornais”.
Com o emprego, Valdete faz mais planos: quer montar um loja de refrigeração. “Trabalhava nessa área antes de ficar desempregado. Mas sempre quis ter meu próprio negócio, ser o cabeça, não só funcionário”, disse ele, que tem reserva financeira para mais esse projeto.
O carpinteiro Wilson Rodrigues Escudeiro, 32, não é de Franca. Contratado pela MVG, deixou Taquaritinga para morar em uma república na cidade e trabalhar nas obras da Unesp. Como Valdete, Wilson tem planos. Namorado de Vera há um ano, quer poupar dinheiro para se casar. “Com as horas extras, consigo R$ 1.100 por mês. Faço reservas para conseguir me casar”, disse ele, que volta para casa de 15 em 15 dias.
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A cidade onde Wilson mora fica distante 168 quilômetros de Franca. A distância é bem diferente da enfrentada por Francisco Ananias, 44, quando resolve visitar a mãe e os irmãos que ficaram no Nordeste. Paraibano, o pedreiro deixou sua terra natal - Conceição - para percorrer mais de dois mil quilômetros e trabalhar na construção civil. Durante seis anos, ficou em Ribeirão Preto e agora está morando em Franca. “Vim, entrei nessa profissão e não largo mais. Adoro o que faço, além disso, não tenho outro serviço e pobre precisa trabalhar e ser honesto”. Ele trabalha na construção do Edifício Florence, novo lançamento da MRV Empreendimentos, próximo ao Carrefour.
Francisco disse que consegue ganhar até R$ 2 mil por mês. “Se fizer horas extras, chego a isso”. A rotina de trabalho começa às 7 horas e só termina às 17. Para trabalhar no interior de São Paulo, Francisco deixou a família no Nordeste. Em seis anos, visitou a mãe e os irmãos apenas duas vezes, há mais de dois anos, e só viajará novamente no Natal. “É difícil estar longe. Vivo sonhando com minha família”.
Mas, para ele, o sacrifício compensa. Depois que se mudou para Ribeirão, conseguiu comprar um terreno de R$ 15 mil em Serrana e está prestes a construir a casa própria. “Só faltam cinco prestações do lote. Já tenho o dinheiro para iniciar a casa”.
Francisco também tem terras na Paraíba. “É uma área onde meus irmãos plantam milho e feijão para vender”, disse.
O pedreiro aprendeu a profissão com o pai e se orgulha de suas obras. “É uma profissão bonita, das mais difíceis que tem. Não é brinquedo não, mas dá orgulho quando olho um prédio prontinho e bonito que ajudei a levantar”.
A Aearf (Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos da Região de Franca) e a Coopecc (Cooperativa de Trabalho dos Profissionais da Construção Civil) confirmam o “boom” da construção civil. Os responsáveis acreditam até na falta de mão-de-obra no setor.
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