Sou de uma geração que aos 17 ou 18 anos leu O Pequeno Príncipe como dever social; era moda. E, passou esta geração a viver a tragédia da culpa, pois, a grande frase da mal ungida filosofia exuperiana era: “Você é responsável por quem cativa”.
Foram necessários muitos anos, até alguns de terapia, para descobrir que inexiste esta responsabilidade. Ninguém pode ser responsável por outrem cativado. Profliguei a culpa. Não a aceitei como fazedora de nortes e rumos.
Eis-me agora recebendo o maior prêmio de minha vida profissional, só porque o meu professor Alfredo Palermo permitiu que um advogado, um dos milhares dos seus alunos, viesse vê-lo ser homenageado. É verdade, o Professor Palermo cativou os seus alunos, e, por eles sempre se sentiu responsável. Continua prestigiando a cada um de nós, milhares que somos, pulverizados por aí.
Lembro-me de 45 anos atrás, março de 1963. Dr. Romeu Coltro, diretor da Faculdade de Direito Laudo de Camargo, de Ribeirão Preto, entra na sala acompanhado do professor Palermo. O apresenta como professor de Português do ensino estadual em Franca, e, também, professor da Faculdade de Direito da mesma cidade. Nada mais. Se houve um primeiro instante de perplexidade para os alunos do 1º ano de nossa faculdade, ele desapareceu em poucos minutos. Ele iniciou sua aula. Silêncio absoluto.
Tudo fluía com extraordinária clareza, de facílimo entendimento. O raro sorriso do professor não conseguia esconder, todavia, o rosto amigo, o olhar sereno e tranqüilo. Mais que tudo: passava para nós a segurança do conhecimento e a autoridade do verdadeiro professor. O seu olhar apagava pequenas conversas ou eventuais barulhos. Sem gritar, sem admoestar, vazava do agora gigante colocado em nossa frente a imagem mais tradicional de um verdadeiro professor. Cinco anos. Ele nos cativou profundamente.
Nunca deixou de responder uma única pergunta. Nunca constrangeu qualquer de nós pelas indagações – muitas vezes – absurdas. Mais que isso, fez de nós os grandes inquisidores. Estimulou que perguntássemos. Estimulou que duvidássemos das ilações que tirava daquele delicioso Código Civil! Que gostoso ouvi-lo falar em pactua sunt servanda de uma forma quase doce em que o latim se fantasiava de poesia.
Eu, advogado por profissão, honrado pela lembrança de meu nome pelo professor Palermo, saúdo a este, que ao nos cativar como alunos e seguidores, acabou sendo o modelo maior de conduta profissional.
Gostaria de lembrar a lição dos índios brasileiros (dita por Darcy Ribeiro, antropologista) que, à míngua de uma igreja organizada, fizeram os seus deuses o sol, a lua, as estrelas, as chuvas, e que os tinham como irmãos, e que saudavam tais divindades dizendo ainapó nhakoé boinun poí caxé (“obrigado irmãos, até outro dia”).
Que eu possa pedir ao meu Deus e aos meus santos que permitam gritar: ainapó nhakoé boinum poí caxé ao meu deus-professor, Alfredo Palermo: até outro dia, até sempre, porque o amor pode ser eterno.
BRASIL DO PINHAL PEREIRA SALOMÃO, advogado, em saudação a Alfredo Palermo, que recebeu o primeiro título de Professor Emérito outorgado pela Faculdade de Direito de Franca, semana passada.
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