Dos 950 alunos atendidos pela Apae (Associação de Pais e Amigos do Excepcional) de Franca, 70 são de outras 12 cidades da região. São crianças e jovens com deficiência física ou mental que viajam até 64 quilômetros diariamente para atendimentos ambulatoriais com médicos e dentistas em Franca, pois não contam com Apaes em seus municípios. Nas viagens, são acompanhados por monitores, suas mães ou outros parentes em vans ou microônibus cedidos pelas prefeituras.
A dona de casa Joselina dos Reis, 51, vive essa rotina há seis anos. O caçula de seus cinco filhos, Luís Costa, nasceu prematuro, aos seis meses de gravidez, e precisa de atendimento na Apae. Hoje, a criança está com 7 anos e desde que tinha 1 viaja com a mãe 40 quilômetros entre Pedregulho e a unidade de Franca. “A Apae faz diferença na vida do meu filho. Antes ele não falava, não sentava, não fazia nada e hoje dá os primeiro passos com andador. Aqui é uma vida para ele”, disse Joselina.
Para que o filho estude e tenha sessões de fisioterapia, equoterapia, educação física e terapia ocupacional, a rotina de Joselina é corrida. Às 4h30, está de pé para fazer o almoço para os outros quatro filhos levarem para o trabalho. A van passa em sua casa às 6h30. Ela e Luís só chegam em casa às 12h15. Neste intervalo, a criança fica na Apae e a mãe espera o fim do atendimento. “Fico esperando. Às vezes, costurando tapetes de crochê”.
Luís está com 7 anos, mas Josilene não tem segurança para deixá-lo viajar sozinho. “Tenho muito medo de estradas. Parece que quando a mãe está junto pode proteger mais”.
Além do desgaste enfrentado pelas viagens diárias, o medo é o principal inimigo de quem depende das perigosas rodovias da região para ter acesso ao atendimento. Um acidente protagonizado na Rodovia Cândido Portinari, entre Pedregulho e Rifaina, no dia 28 de março, reacendeu as preocupação dos passageiros. Uma Kombi transportava sete pessoas e foi atingida por um caminhão desgovernado. Cinco pessoas morreram. Dos ocupantes, três eram alunas da Apae. Uma delas, Isabel Batista dos Santos, 19, morreu e as outras, Ketima Fonseca, 13, e Cristiane Santos, 18, estão internadas na Santa Casa de Franca.
Para a dona de casa Alessandra da Silva, 28, de Pedregulho, foi mais difícil tomar a van na porta da sua casa segunda-feira pela manhã, dois dias após a tragédia. Ela viaja há cinco anos até Franca para o filho Paulo Vítor, 6, ser atendido na Apae. “É difícil passar neste caminho, mas vamos fazer o quê? Essas pistas são muito movimentadas e a gente fica com medo. Eu conhecia as meninas do acidente. É uma tristeza muito grande, é doído, porque se fosse o filho da gente estaríamos sofrendo. Mas precisamos estar aqui”, disse. O garoto tem paralisia cerebral, fala poucas palavras e ainda não anda.
MOBILIZAÇÃO
Maria Inez Archetti, presidente da Apae de Franca, espera que o acidente ajude a sensibilizar prefeitos a facilitarem a acessibilidade dos moradores ao atendimento especializado. “A filosofia do Movimento Apaeano tem sido criar vontade política nos prefeitos para que desencadeiem um processo de construção de políticas e equipamentos sociais que atendam na própria cidade suas demandas”, disse. A Apae de Franca não disponibilizou à reportagem o número por cidade de alunos que são atendidos na associação.
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