Nos trilhos da Estação


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Homem sentado em banco na Estação da Mogiana, onde passageiros embarcavam e desembarcavam na cidade
Homem sentado em banco na Estação da Mogiana, onde passageiros embarcavam e desembarcavam na cidade
A vendedora Rafaela Ribeiro Borges,18, trabalha em uma loja em frente à Praça Sabino Loureiro, na Estação. Dali, vê diariamente a movimentação do ponto de ônibus e das ruas que margeiam a antiga estação da Companhia Mogiana, que deu nome ao bairro e hoje não passa de lembrança pela presença do onipotente prédio, o coração do bairro. Rafaela diz gostar do local e comenta que moraria ali tranqüilamente. Também não é para menos. Na Estação é possível encontrar de tudo. Uma extensa rede de agências bancárias, lojas de todos os segmentos, supermercados, restaurantes, bares, posto de saúde, danceterias, escolas e até mesmo estabelecimentos esquecidos pelo tempo, como relojoarias, onde profissionais à moda antiga manipulam, com uma lupa no olho direito, as pequenas peças de um relógio. O movimento diurno, formado em sua maioria por estudantes e trabalhadores que utilizam o ponto de ônibus e garante o “ganha-pão” de Rafaela, se contrasta com o ambiente noturno do local, que causa preocupação à vendedora e aos moradores do bairro. “À noite não dá para vir aqui. Tem muitos malandros e ‘pingaiadas’”. Os bares das redondezas seriam o motivo da presença dos “malandros” citados por Rafaela. Ainda à noite, o local é ponto para mendigos se encontrarem e se acomodarem nos bancos e nas marquises da antiga estação. Como noticiado pelo Comércio em 6 de janeiro deste ano, 20 mendigos utilizam o local como moradia. A movimentação de moradores de rua e dos malandros estaria até mesmo fazendo com que as pessoas preferissem pegar os ônibus no Centro, evitando assim ficar paradas no ponto em frente à antiga estação ferroviária. A má-conservação do prédio, que apesar de abrigar alguns órgãos públicos parece estar abandonado, contribui para isso. Mesmo com 18 anos, a vendedora diz que já presenciou mudanças no local. Ela comenta que, quando era criança, seu pai tinha uma barraca na praça e o local era mais tranqüilo. “Antes era bem melhor. Não é a mesma coisa. No final de ano, ficávamos aqui até mais tarde. Hoje não tem jeito”. Apesar de presenciar a mudança de uma década, Rafaela diz que nem imagina como era a Estação antes, quando a ferrovia ainda funcionava. E é justamente nesta Estação que o então jovem José Antônio Bosco chegou aos 16 anos, em 1952. Praticante de telégrafo, veio acompanhando o pai, que havia sido transferido da Estação de Mandiú, hoje no município de Restinga. Foi o início de uma paixão que dura até hoje. No mesmo bairro, o praticante de telégrafo foi efetivado como funcionário da Mogiana em 1953, onde trabalharia até se aposentar como último chefe da Estação, 30 anos mais tarde. Bosco sabe melhor do que ninguém a diferença entre o bairro da Estação que conheceu e o que se tornou hoje. Ele comenta que, na época áurea da estação, Franca girava em torno do local. A estação do trem era onde chegavam as correspondências, de onde mandavam telegramas e se compravam as passagens para as outras cidades. Até mesmo embarcadores de gado tinha no local. Os ônibus que circulavam pela cidade partiam todos dali. Eram apenas três linhas, uma para a Praça João Mendes, outra para o Cruzeiro (hoje região da Prefeitura) e para o Colégio Champagnat. Além disso, o bairro abrigava a grande maioria das fábricas de calçados da cidade, que mais tarde seriam transferidas para o Distrito Industrial. [FOTO2] PONTO DE ENCONTRO Na mesma Praça Sabino Loureiro, onde Rafaela teme hoje ficar até tarde, os alto-falantes embalavam as paqueras dos jovens que circulavam pela praça, de acordo com Bosco. As mulheres, segundo ele, iram em uma direção e os homens em outra. “Foi uma juventude muito boa. Não tinha essa violência de hoje”. Além da praça, o Cine Santo Antônio, onde hoje funciona uma igreja, e o baile do Clube Internacional eram os grandes atrativos do bairro. O clima bucólico e romântico da praça, comenta Bosco, se estendeu até o começo dos anos 70. A expansão se deu de forma natural e o funcionário da Mogiana diz que o bairro, assim como os vizinhos, foram crescendo sem se perceber. Apesar das boas lembranças, Bosco diz que o bairro ainda continua bom, apenas diferente, com o comércio mais intenso. O único problema, ressalta, é o abandono da estação ferroviária, onde passou boa parte de sua vida.

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