A sapateira Elaine Cristina de Paula, 30, tem apenas seis dias para conseguir um novo teto para morar com seus seis “filhos” (quatro são dela e dois são sobrinhos). A família mora numa casa no Jardim Paulistano II, mas está com três aluguéis atrasados e tem de deixar o imóvel até 7 de abril, quando o quarto aluguel estará vencido. A locação custa R$ 170 mensais. A mãe alega não ter para onde ir e chora ao contar sua história.
Para quitar os quatro meses, Elaine teria de desembolsar R$ 680. Mas ela não tem condições. A única renda da casa são R$ 50 do Bolsa Família. Até a semana passada, ela estava trabalhando numa banca de pesponto para ganhar cerca de R$ 600 por mês, mas o filho de 4 anos ficou doente, precisou ser internado na Santa Casa de Franca e ela faltou do emprego. “Deixei meu serviço para cuidar do meu filho. Eu receberia no dia 7, mas não sei como vai ficar.
Ainda não falei com o meu patrão”, disse.
Os problemas na família começaram depois que ela e o marido, que são sapateiros, perderam o emprego. O casal ficou três meses desempregado, o que complicou a situação financeira. “Faço algumas faxinas e lavo roupas para fora, mas o dinheiro que entra é para a água, luz e boca (alimentação) porque sem isso não podemos ficar.
O aluguel foi atrasando. Agora o dono quer que a gente pague os atrasados e saia da casa dia 7. Conversei com ele, mas está muito nervoso e não quer acordo. Ele já até tinha pedido duas vezes para sairmos, mas não saí por não ter para aonde ir”, disse Elaine, que aluga o imóvel há um ano e quatro meses. O contrato é verbal.
Sem serviço em Franca, o marido dela, Flaviano Teixeira, 35, decidiu ir para Ribeirão Preto. Há um mês na cidade vizinha, só conseguiu trabalho há uma semana, mas ainda não recebeu salário.
“Não tenho a ajuda dele por enquanto e fiquei sozinha com os meninos”. Dois dos “filhos” têm 15 anos e os outros 14, 12, 9 e 4 anos e, por serem menores, não trabalham.
Os parentes mais próximos de Elaine moram fora e ela não gostaria de se hospedar na casa de outros familiares. “Queria uma casa para esses meninos. Não quero ir para a casa dos outros. É difícil com seis crianças porque nem todo mundo entende que são pequenos e fazem bagunça. Quero um lar meu para ficar com eles”, disse, chorando.
Num primeiro momento, a sapateira pensou em se alojar na casa de uma tia, mas a situação lá não comportaria mais sete moradores de uma vez. “Ela está sem água há sete meses. Ia guardar meus móveis num cômodo emprestado pela minha prima e morar com minha tia, mas não tem como. Preciso de outro espaço”.
A reportagem tentou localizar o proprietário da casa. A irmã dele passou os telefones móvel e da residência dele, mas ele não foi encontrado até as 18h30 para falar sobre o assunto.
O secretário de Ação Social, Roberto Nunes Rocha, que é advogado, disse que o dono da casa não tem direito de exigir a desocupação sem um documento oficial. “Ele não tem esse direito, principalmente porque a mulher tem seis crianças. Despejo tem de ser por ordem judicial, mesmo se o contrato for verbal. O proprietário está fazendo Justiça com as próprias mãos e isso não é legal”.
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OUTRAS CARÊNCIAS
“Falta quase tudo aqui”. A frase de Elaine expõe outras dificuldades vividas pelos moradores do Jardim Paulistano II. Além do risco de perder o teto onde vivem, sofrem privações de alimentos. “Comemos arroz, feijão e ovo, quando tem. Nem me lembro da última vez que comi carnes. Fico preocupado com isso, igual a minha mãe”, disse Natanael, 12, aluno da 5ª série. “Compro mistura quando tenho dinheiro, mesmo assim é da mais barata, como salsicha. O leite que ganho dou apenas para o meu caçula, de 4 anos. Os outros pedem, mas não posso deixar tomar”, disse a mãe.
A família mora na Rua Wilson Abrão Elias, 645, no Jardim Paulistano II.
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