<p>Geison Brener de Oliveira tem hoje 38 anos de idade e já foi o protagonista de uma história que mexeu com o mundo. Há quase três anos, o ex-porteiro ameaçou ingressar com uma ação na Justiça para pedir que fossem desligados os aparelhos que mantêm seu filho Jhéck Brenner de Oliveira vivo. A decisão foi anunciada em agosto de 2005, com exclusividade, para o Comércio da Franca e ganhou a mídia mundial. O caso foi analisado por juristas, autoridades políticas e eclesiásticas nacionais e internacionais. Geison foi alvo de centenas de críticas. Passada toda a turbulência, o agora comerciante, que vive em uma casa simples, na Estação, diz que, desde 2005, não vê o filho. Sobrevive vendendo água de coco.</p><p><br />Sobre o que aconteceu, afirma que tudo não passou de “jogada de marketing” e que, se houvesse a batalha judicial e ele ganhasse, desistiria da eutanásia. “Fiz tudo aquilo para ajudar meu filho. Queria chamar a atenção para o problema dele e consegui”, afirma.</p><p><br />Da mãe de Jhéck, sua ex-mulher Rosemara dos Santos, espera obter perdão. Veja na entrevista abaixo o que pensa Geison e como está hoje sua relação com o filho que continua vivo e dependente dos aparelhos para sobreviver. Jhéck tem uma síndrome rara. Não anda, não enxerga e não fala.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - Em agosto, faz três anos que você pediu a eutanásia para seu filho. Você o viu nesse período?<br />Geison Brener de Oliveira</strong> - Não. Não quero vê-lo mais.<br /><br /><strong>Comércio - Por que você decidiu pedir o desligamento dos aparelhos que mantinham seu filho vivo?<br />Geison</strong> - Um dia eu fui até o hospital e vi meu filho pelado, naquele estado (doente), sem poder se mexer. Parecia que estava abandonado. Parecia que eu via em seus olhos que ele queria morrer. Os médicos não falavam o que ele tinha, não davam uma solução para seu caso. Não falavam se tinha remédio. Diziam que era uma doença que não tinha cura. Senti naquele dia, naquela hora em que eu o olhei, que eu precisava fazer alguma coisa para tirar ele daquele estado. Precisava ajudar ele. Foi quando eu falei no seu ouvido: “Filho, eu vou fazer alguma coisa para te ajudar”. Na porta do quarto de Jhéck, eu encontrei com a Rose (Rosemara dos Santos, mãe de Jhéck) e disse que eu faria alguma coisa para tirar ele dali. Eu não sabia o que era, mas eu sabia que devia fazer alguma coisa. Saí do hospital e chorei muito. Me desesperei.<br /> <br /><strong>Comércio - E quando pensou que a morte do seu filho seria a solução?<br />Geison</strong> - Eu vi um caso na TV de uma mulher que o marido tinha conseguido a liberação para a eutanásia na Justiça dos Estados Unidos. Vi que aquilo estava dando muita repercussão. Foi aí que pensei que eu faria o mesmo. Não queria a morte do meu filho, queria chamar a atenção para seu caso e conseguir ajuda de alguém que soubesse de algum tratamento para ele. Um patrão meu disse que havia um estudo com células-tronco que até poderia ajudá-lo, mas eu não conseguia que ninguém me falasse nada sobre cura, remédio... nada.<br /> <br /><strong>Comércio - Não queria a morte de Jheck mas procurou um advogado para entrar com um processo na Justiça pedindo a eutanásia...<br />Geison</strong> - Foi um ato de desespero meu. Eu procurei um monte de advogados que quisessem pegar a causa, mas nenhum queria. Até eu encontrar um que me explicou logo de cara que seria impossível conseguir, mas disse que iria tentar. Eu não queria saber, eu queria chamar atenção. Foi uma espécie de jogada de marketing.<br /> <br /><strong>Comércio - Mas nessa jogada você colocou seu filho e sua ex-mulher no meio de um furacão. Você realmente sabia o que estava fazendo?<br />Geison</strong> - Eu sabia que queria chamar a atenção, só não sabia como. Quando vi aquela chance. não me importei comigo nem com ela. Só pensei nele. Tudo o que fiz foi pensando no Jheck. Só que não pensei que fosse ser tão forte assim a repercussão. No dia seguinte, quando o Comércio da Franca noticiou minha decisão de pedir a eutanásia, isso caiu como uma bomba na cabeça da Rose. Ela me ligou, disse que eu estava ficando doido. Perguntou por que eu falei tudo aquilo para o jornal, que eu deveria amar o filho e não querer que ele morresse. Eu disse a ela que eu ia fazer alguma coisa para o nosso filho e fiz. <br />Comércio - Como a sua família e a dela reagiram?<br />Geison - Eles me condenaram por eu ter feito aquilo. Depois da Rose, minha família e a dela se viraram contra mim. Todo mundo se virou contra mim, na verdade. <br /> <br /><strong>Comércio - Todo mundo?<br />Geison</strong> - É, todo mundo. Não foram só meus parentes que me condenaram. A cidade, as pessoas do País inteiro, todos me julgaram sem saber o que se passava na minha cabeça. Por onde eu andava, por onde eu passava, eu era observado. No aeroporto do Rio de Janeiro, eu levei uma bolsada de uma mulher que me xingou. Sentia muita pressão por todos os lados. Parecia que todo mundo queria me linchar. Foi um período muito difícil. Até hoje é muito difícil. Durante estes quase três anos, eu tentei novos empregos depois de sair da Samello (onde trabalhou como porteiro). Em todos - acho que foram uns quinze - eu recebia a informação de que tinha o perfil que a empresa queria e que deveria aguardar. Mas a resposta positiva nunca vinha. Algumas vezes, eles falavam diretamente: “Olha, Geison, preciso de uma pessoa para contato direto com o público e você...” Isso me persegue até hoje. Por isso, eu me enfiei no trabalho em meu comércio, que consegui montar aos poucos e não penso mais no amanhã. O que eu faço é para o hoje.<br /> <br /><strong>Comércio - O que você esperava? Você pediu a morte do seu próprio filho...<br />Geison</strong> - Mas não era isso que eu queria lá no fundo. Tudo o que fiz foi com um propósito e eu consegui. Consegui mover os olhos da sociedade para o caso do Jhéck. Só não consegui que alguém trouxesse uma cura. Deus é testemunha do meu propósito.<br /> <br /><strong>Comércio - Você fala de Deus, mas, à época, você chegou a renegá-lo, se lembra?<br />Geison</strong> - Deus sabe que não foi de verdade. Antes de fazer tudo aquilo, eu me ajoelhei em casa e pedi perdão para Ele. Disse que faria aquilo e que me perdoasse pois era pelo meu filho. Tenho certeza de que eu serei perdoado quando chegar lá em cima. Como também sei que serei perdoado pelo Jhéck quando nos encontrarmos lá em cima.<br /><strong> <br />Comércio - Você pensa em visitá-lo, pedir perdão pessoalmente a ele? <br />Geison </strong>- Não quero vê-lo nessa vida. Nem a ele nem a sua mãe. Não quero ver meu filho do jeito que ele está hoje. Passei dez anos de minha vida com meu pai em situação parecida, internado sem poder se mexer e, de tempos em tempos, o hospital ligava para avisar que ele poderia morrer e a família deveria visitá-lo. Passei dez anos assim, esperando a morte de meu pai. Não quero ver meu filho daquele jeito mais. Vou me encontrar com ele depois que nós dois morrermos.<br /> <br /><strong>Comércio - E pela mãe dele, sua ex-mulher, você foi perdoado?<br />Geison</strong> - Ela disse, em entrevistas, que me perdoou, mas eu sei que não. Mas eu gostaria que ela me perdoasse. Mesmo não querendo mais vê-la, gostaria de saber que ela me perdoa. <br /></p>
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