Ele não é treinador, mas é importante


| Tempo de leitura: 4 min
Não pretendia, mas vou falar sobre a Francana. O caso de amor e ódio que une esta cidade à sua equipe de futebol é causa de perda de sono, de alegrias e tristezas grandiosas, de mau uso com finalidades políticas e pessoais, mas fundamentalmente, de paixão exacerbada. Não há, a rigor, ninguém que possa se dizer vacinado contra a Feiticeira, Veterana, grêmio esmeraldino da Rua Simão Caleiro, como diz o narrador Marcos Silva, da Difusora e do jornal Comércio da Franca. E chuto de bate-pronto. Wantuil Rodrigues não pode continuar treinador da Francana por que nunca foi treinador. Ele conhece seu ofício como poucos: é empresário de jogadores, fala a linguagem dos boleiros e desfruta de alto conceito e respeito da parte deles. É ainda, empresário num nicho de mercado fantástico: intercâmbio internacional de jovens que querem aprender futebol na Pátria da bola, o Brasil. Wantuil Rodrigues é, ainda, um especialista da palavra. Não fosse boleiro, poderia se dar bem em qualquer atividade em que pudesse usar sua capacidade de fala para persuadir, convencer. Mas insisto. Não é treinador. Sobrevive dos talentos individuais de suas equipes. Sem os talentos individuais, seus times não prosperam. Não têm padrão de jogo. Não têm jogadas ensaiadas. Não contam com substituições certas nos momentos críticos. Wantuil Rodrigues parece que vê outro jogo, não aquele que a torcida e a crônica especializada vêem, fora do campo. Por que digo isso num momento tão decisivo quanto este? Porque gosto de Wantuil Rodrigues. Entendo que, em muitos anos, a Francana não teve um cidadão tão afeiçoado ao clube como ele. Alguém que se julga devedor à torcida e à cidade, por causa do desastre de 2002, quando, em quatro jogos (dois contra o Marília e dois contra a Portuguesa Santista) não conseguiu levar a Francana a tempos melhores. Ele tem vergonha na cara, marca de cidadãos sérios como quase não se vê mais. Sei que Wantuil Rodrigues pagou para trabalhar na Francana. O projeto com jovens coreanos em estágio no Brasil – e na Francana, para onde os trouxe – poderia render dinheiros inteiros a seu bolso, mas ele dividiu e contratou, além de si próprio, toda uma comissão técnica. Hoje, esta relação de dependência entre o clube e ele é menor, mas ainda existe. Trata-se de um jogo empresarial: quanto mais alto estiver a Francana, melhor para seus negócios. Está errado? Não. Está, rigorosamente, certo. Não gosto quando, na condição de torcedor, me levanto nas arquibancadas e xingo Wantuil, que está na condição de técnico do time outra vez. Preferiria vê-lo preservado, diretor do clube que meu pai, Domingos Lima, acompanhou desde a fundação e que me ensinou a gostar, em muitos anos de companhia por estádios afora. Não me lembro de alguém tão determinado quanto Wantuil. Conhece bons jogadores, que também o conhecem e são capazes até de modificar planos pessoais e profissionais para atendê-lo. Temos hoje, segundo penso, uma conjunção quase ideal de fatores que não aconteceu em muitos anos – um presidente distante de vaidades pessoais; um plantel com jogadores que põem a perna (e o nariz) em divididas como há tempos não víamos; um boleiro experiente, que motiva jogadores como poucos e que gosta da Francana a ponto de pagar para trabalhar no clube; uma cidade empolgada emprestando patrocínios que confiam na seriedade da diretoria; a mídia consciente sobre a temporada “diferente para melhor” que a equipe cumpre – mas não temos técnico, alguém a que possamos despachar sem dor no coração, se os resultados não acontecerem. Que Wantuil e seu projeto para a Francana fiquem, independente do resultado de amanhã. E que também, independente do resultado de amanhã, o presidente Servino Braga, seus diretores e o próprio Wantuil me leiam, pensem, reflitam e tomem a decisão que esta cidade quer deles: vamos atrás de um técnico matreiro, enguiçado, especialista nestas divisões que a Federação Paulista de Futebol insiste em enfiar goela abaixo das esforçadas cidades do interior de São Paulo, torneios-laboratórios para árbitros iniciantes que muitos julgam “comprados”, mas que são, na essência, aprendizes muito ruins e inexperientes mesmo. E deixem Wantuil Rodrigues cuidar dos jogadores e dos técnicos, como executivo de futebol, ou como gerente de um Projeto Futuro. A nova Francana, tão respeitada quanto já foi, repetirá e suplantará suas maiores conquistas. MILAGRES Servino Braga tem conseguido alguns milagres. Tomou a temerosa decisão de venda do “Nhô Chico”. Com ele, o time está em campo obtendo resultados e, com o aval do Conselho Deliberativo, trocará proximamente mais de R$ 4 milhões em dívidas do clube com o município. Além disso, ainda terá dinheiro em caixa para outros projetos, mas quer mais além de levar a equipe à A-2: um centro de treinamento para o clube chamar de seu. CT O atual técnico, Wantuil Rodrigues – que espero, seja o executivo do projeto Francana do Futuro – ao trazer para a cidade seu intercâmbio internacional de jovens jogadores, falou na possibilidade de planejar um Centro de Treinamento para a Francana, com ajuda coreana. Deixou de falar. Duas correntes de pensamento tentam explicar: uma, afirma que ele poderia ser cobrado por utilizar o nome da Francana para ganhar dinheiro. Outra, que não seria o momento. Me parece que as condições atuais autorizam a volta da discussão sobre o assunto. Seria, o mais próximo de um projeto de profissionalização que pude testemunhar na Francana, em décadas.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários