O crítico e o criativo


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Em minha palestra “O Meu Everest”, trato dos desconfortos do percurso que fiz até o Acampamento Base do Monte Everest em 2001, enfrentando caminhadas de mais de oito horas, banheiros deploráveis, frio, tonturas e vômitos. Ainda durante minha preparação psicológica, considerei duas opções para encarar a viagem. Uma, a crítica, que nos faz analisar, usar a lógica, que tem como base a negação: observamos as coisas com ceticismo, negamos, criticamos, destruímos e então fazemos nossas escolhas. Imaginei-me usando a lógica nos sanitários do Everest... A segunda, o ponto de vista criativo, quando usamos a percepção, desenhamos e exploramos, que tem como base a inspiração. Optei pelo criativo. Nos momentos da viagem em que eu não me agüentava em pé, quando o frio era insuportável, o ar rarefeito, os enjôos permanentes, eu dava uma parada. Olhava para cima e via uma cadeia espetacular de montanhas, algumas com mais de 8 mil metros de altura, cobertas de neve. Uma delas era o Everest, com sua crista de gelo soprando ao vento. E então uma voz me sussurrava: “Ô meu, olha só onde você está! Na trilha do Everest! No sonho da sua vida! Tem que doer! Tem que ser difícil! Vencer essa dificuldade faz parte da trilha!”. E eu ganhava novo ânimo para seguir em frente. Tivesse optado por entrar na viagem com o olhar crítico, da negação, ela nem teria começado. Foi o olhar criativo, inspirado, que transformou uma viagem que seria um inferno na maior experiência de minha vida. A maioria das pessoas não entende isso, não consegue assimilar a idéia de passar frio, correr riscos e entregar-se a um sofrimento físico quase insuportável, “para nada”. E ainda achar legal! Essas são as pessoas que optam pelo olhar crítico. Apenas crítico. Mas só o olhar crítico é perigoso... Faça um teste. Esta noite, assista ao Jornal Nacional. Veja o Willian Bonner e a Fátima Bernardes apresentando o Brasil dos noticiários e depois responda: que olhar eles usam para descrever o Brasil? O crítico ou o criativo? Com a maior parte do programa focada nas tragédias, nos crimes, no desrespeito às leis e nas malandragens cotidianas, a resposta é fácil, né? Existem motivos para um olhar tão crítico? Claro que sim. Mas não podemos nos submeter a um olhar só crítico. Eu, do alto de meus 51 anos, tenho condições de assistir a televisão, ler os jornais, ouvir o rádio e filtrar o que é bom, útil, motivador. Sei separar a verdade da mentira. Sei onde estão as tentativas de manipulação. E sei que o retrato real do Brasil não é aquele que está sendo apresentado. Mas e quem não sabe? Que percepção de País está sendo criada na cabeça deles quando o único olhar possível é o crítico? A do País miserável, de ladrões, de enganadores, incompetentes. O país da violência e da impunidade. O país no qual não vale a pena estar... É por isso que a viagem dos brasileiros dói. É dura. Feia. Insuportável. LUCIANO PIRES é jornalista, escritor, conferencista e cartunista.

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