T radicionalmente, o ingresso na universidade é marcado por uma acolhida, denominada trote. Suas ritualísticas, porém, mais se assemelham a terrorismo juvenil, em razão da violência de seus métodos. Essa é uma tradição que remonta à própria história da universidade com raízes na Idade Média e alcançando o auge em 1700, na Universidade de Paris, fundada em 1200.
Visto como rito de passagem, o trote se inspira na iniciação das sociedades primitivas tribais. A mudança de status de uma pessoa no seio dessas comunidades era marcada por uma celebração. Para os homens, a caça e o abate do primeiro animal associaram à iniciação ao derramamento de sangue; de igual forma às mulheres, no momento da primeira menstruação, símbolo da fertilidade e da aptidão ao casamento.
Essas associações guardam o sentido simbólico da transformação do iniciante em membro produtivo do clã, quer pela alimentação (caça) ou procriação (menstruação). Esse rito de passagem, praticado às avessas no trote universitário, tem sido afronta aos Direitos Humanos, na medida que obriga a participação dos “calouros” em situações vexatórias, sob pena de exclusão e bullying – segundo o Boletim Brasileiro de Educação Física, de 27 de março de 2008, fenômeno que “compreende todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas (de maneira insistente e perturbadora) que ocorrem sem motivação evidente e de forma velada, sendo adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s), dentro de uma relação desigual de poder. Este fenômeno se manifesta sutilmente sob a forma de brincadeiras, apelidos, trotes, gozações e agressões físicas. Com relação às maneiras que os alunos se envolvem com o bullying, eles são classificados em alvos, alvos/autores, autores e testemunhas. Conseqüências do bullying para os alvos: em geral, ficam amedrontados, estressados e com um quadro de baixa auto-estima, capacidade mínima de auto-aceitação e auto-expressão, podendo até desenvolver doenças de origem psicossomática; para os autores: alunos que praticam o bullying têm grande probabilidade de se tornarem adultos com comportamentos anti-sociais e violentos; para as testemunhas: muitos alunos podem se sentir incomodados com o que vêem e inseguros sobre o que fazer” –, transformando o calouro no “bixo eterno”.
O sangue fica por conta das mortes acidentais provocadas pela brutalidade da aplicação das “tarefas” a serem cumpridas, a exemplo do jovem calouro da Faculdade de Medicina da Usp, Edison Tsung Hsueh, morto acidentalmente ao ser jogado numa piscina, e outros mais, vitimados de tarefas classificadas de nível moderado, no ano de 1999.
O caso do universitário francano e do trabalhador frentista do posto de gasolina em Ribeirão Preto mostrado pelo Comércio há semanas é um dos muitos exemplos. Obrigar a beber até perder os sentidos faz parte da mesma modalidade mediana que custou a vida do estudante chinês. Alheios a dispositivos legais e normas das universidades que proíbem tais formatos, persistem com na ancestral “barbárie”. Na marginalidade perpetuam a violência na medida em que o calouro de hoje será o veterano de amanhã, com tempo suficiente para requintar e aprimorar as “tarefas”.
Se por um lado “ouvidos moucos continuam produzindo loucos”, de outro, a Fundação Educar apresenta o Trote Solidário, cujo redesenho tira de cena a “barbárie” e cede lugar a um programa coletivo baseado na hospitalidade, na ética e no respeito aos Direitos Humanos a serem cultivados na sociedade como missão institucional.
Atualmente, 150 universidades aderiram ao programa. Entre elas estão as nossas Unesp, campus de Franca; Unifran; Uni-Facef e Direito Municipal. A sociedade brasileira anseia um pouco mais: que seus filhos lhes sejam devolvidos como membros de uma “nova tribo”, com cultura suficiente para fazer “milagrar” de flores as latrinas repletas de musgos e formigas representadas pela velha e enferrujada política brasileira.
BIXO, BIXO EST!
O significado de “trote” está ligado ao trotar dos cavalos. Uma andadura que não faz parte da natureza do animal e que é introduzida a poder de chicote e chibata, para mudar sua natureza. Domesticar os novatos, chamando-os de “bixos”, tem feito a alegria dos veteranos. O “bixo” só é liberado depois de passar por “testes” que podem durar até um ano. Os reprovados viram escravos dos veteranos, lavando, cozinhando, passando, estando à disposição deles por tempo indeterminado.
ALGUMAS DAS FORMAS!
“Chispada”: prática em que calouros são obrigados a andar nus por um espaço público. Muitos são levados à dependências policiais por atentato violento ao pudor. “Cabo-de-guerra”: pontas de um barbante amarradas nos genitais de dois alunos de primeiro ano. Eles simulam um cabo de guerra e vence quem suportar melhor a dor.
“Pastinha”: o calouro é obrigado a passar pasta de dente no pênis e se masturbar na frente de um grupo de veteranos. Uma variante: veteranos seguram o calouro e outros introduzem pasta de dente em seu ânus. “Rolo compressor”: o aluno é forçado a rolar nu sobre outros calouros que também estão sem roupa deitados no chão. “Vômito congelado”: veteranos armazenam vômitos nas geladeiras das repúblicas e obrigam calouros a ingerir. (Mais em http:www.terra.com.br/1756educação/1756—barbarie—vete
rana.htm).
EDUCAR É A SOLUÇÃO!
A Fundação Educar tem premiado calouros e universidades que apresentem projetos impactantes e criativos de cidadania, com ênfase na solidariedade. Os melhores são premiados. Onze Estados enviaram projetos.
DISQUE TROTE
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