Nem tudo se globaliza


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N os “tempos de globalização” que estamos vivendo, circulam quase que livremente bens, capitais e serviços entre os países, no entanto o mesmo não é válido para as pessoas devido às travas migratórias, que dificultam o seu livre fluxo. É o que acontece com os brasileiros que viajam à Espanha, alguns dos quais são impedidos de sair do aeroporto e têm que regressar ao país de origem no próximo vôo. No dia 5 de março, 30 brasileiros ficaram retidos durante horas numa sala do aeroporto de Madri, capital espanhola, até descobrirem que a entrada ao país havia sido negada porque a Espanha exige que tenhamos documentos comprobatórios do que vamos fazer no país, além de dispormos de, pelo menos, 70 euros para cada dia de permanência. Em 2007, em torno de 3 mil brasileiros foram impedidos de entrar na Espanha. Sendo assim, no dia 6 de março, a Polícia Federal brasileira barrou, e dentro do que prevê a legislação migratória, a entrada de 7 espanhóis que tentaram ingressar ao Brasil pelo aeroporto de Salvador por razões semelhantes às apontadas pela migração espanhola, adotando uma medida diplomática baseada na reciprocidade, ou seja, de igual para igual. Quando estive num debate universitário sobre a produção científica na área de humanidades em que opinou uma participante espanhola, surgiu o seu comentário de que raramente um pesquisador europeu em alguma instituição deste continente lê alguma coisa do que se produz na América Latina, como se não importasse a produção intelectual daqui, ademais de que finalizou dizendo que “a América Latina não existe para os espanhóis”. É possível dizer que a colonização hispânica na América, que teve seu fim formal ao longo do século XIX, adquiriu novos contornos com a globalização e a transnacionalização dos capitais e investimentos, que é um cenário em que nem todos saem ganhando. Os interesses da Espanha na América Latina são comerciais e estratégicos. Suas indústrias editoriais, com filiais também em Buenos Aires e Cidade do México, fazem-nos chegar obras de autores europeus canônicos e outros não tão conhecidos, enquanto a produção literária latino-americana não tem tanta aceitação e circulação nestas editoras. No Brasil, empresas espanholas se apropriam cada vez mais de setores estratégicos, como a compra do Banespa (Banco do Estado de São Paulo) pelo Santander, e da Telesp (Telecomunicações de São Paulo) pela Telefónica. Esta, por sinal, só quer saber da nossa grana e introduziu um conceito novo no País que eu chamo de “burocracia empresarial”, em que os problemas do consumidor são sempre culpa do sistema ou de outro setor. Está mais do que na hora de os embaixadores ou os presidentes do Brasil e da Espanha sentarem-se e dialogarem, deixando um pouco de lado o escambo entre o flamenco e o samba, pois desta vez se trata de tornar transparente a relação que existe entre estes dois países sem que os brasileiros dancem. Do jeito que está, perdem em turismo e enfraquecem a confiança. A medida de reciprocidade migratória brasileira é antes uma resposta que uma decisão, ou nunca havia passado pela cabeça das nossas autoridades “pegar no pé” dos espanhóis, portanto é necessário fazer uma revisão destas relações bilaterais para que se derrote o orgulho espanhol e a servilidade brasileira. BRUNO PERON LOUREIRO é bacharel em Relações Internacionais

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