A falta de manutenção do Parque dos Trabalhadores, mostrada recentemente pelo Comércio da Franca, vai além do simples desleixo da atual administração municipal. A denúncia evidencia como o atual prefeito trata o patrimônio público viabilizado por outros governos e como o vincula à disputa política, em particular com o PT.
A raiz do discurso utilizado por Sidnei Rocha para legitimar a sua ação de governo vem da disputa eleitoral de 2004. Na campanha, defendeu a tese de que os problemas da cidade eram somente gerenciais e, portanto, bastava trocar os gerentes (Gilmar Dominici e seus secretários) para que os gargalos fossem rapidamente resolvidos.
Em poucos meses de 2005, porém, o diagnóstico mostrou-se em contradição com a realidade. E foram os novos gerentes (Sidnei Rocha e seus secretários) os responsáveis pela desconstrução do discurso vencedor.
O primeiro secretário de Saúde, Eduardo Sandoval, disse que “dinheiro nós temos” para resolver os problemas (Comércio da Franca, 7 de janeiro de 2005). Poucos meses adiante, em entrevista ao radialista Marcelo Valim, em programa da rádio Hertz, sepultou o discurso gerencial, reconhecendo que na verdade “faltam recursos” (Comércio da Franca, 13 de abril de 2005).
Trajetória semelhante foi percorrida pelo secretário de Finanças Sebastião Ananias. O foco passou do gerencial para o estrutural e logo identificou que o problema de Franca não era a despesa ou a dívida pública, mas a “receita que está aquém da realidade”, em 9 de março de 2005. Avaliação idêntica à de Gilmar Dominici ao longo de seu governo.
A despeito da mudança de opinião de sua equipe, Sidnei Rocha continuou a “demonizar” o PT e a utilizar o mesmo discurso. Na prática, o ato é uma reação defensiva, pois nunca reconhecerá que errou no diagnóstico e, portanto, nas ações que empreendeu para enfrentar os problemas da cidade. Não surpreende que a mentira (o discurso da dívida, por exemplo) e a desqualificação das políticas públicas da administração Gilmar Dominici (as ações no trânsito, por exemplo), continuam a ser os instrumentos utilizados por Sidnei Rocha para legitimar o seu estilo de governo e a sua disputa política com o PT.
O abandono do Parque dos Trabalhadores não é, portanto, manifestação isolada; integra o rol de políticas públicas deixadas à agenda do atual governo municipal e desmerecidas, para não jogar luz sobre qualidades do governo do PT. Na administração Gilmar Dominici nem tudo foram flores, mas nem tudo foram espinhos.
O governo tucano convive com outros abandonos: a política de trânsito e transporte coletivo; as políticas sociais, como o Programa Rede Criança e Adolescente; as políticas de saúde, a pouca publicidade dada ao Laboratório de Remédios; o abandono da educação; o abandono do Plano Diretor; o abandono da participação popular, da convivência democrática, civilizada e respeitosa com os diversos setores da comunidade e da imprensa; o abandono do respeito ao servidor público municipal; o abandono da independência da Câmara Municipal; o abandono da relação com o governo Federal em tempos de PAC.
Sidnei Rocha não tem a dimensão de um estadista e instrumentaliza o patrimônio público de uma comunidade para a disputa política particular. Não é agregador, tem o perfil de político conservador e autoritário que cultiva a imagem de “empreendedor”, mas faz um governo elitista e excludente.
JEFFERSON RIBEIRO é jornalista e ex-secretário de Governo da gestão Gilmar Dominici
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