<p>No próximo dia 1º, após 47 anos de serviço, o diretor do Deinter-3 de Ribeirão Preto, responsável por Franca, delegado Anivaldo Registro, vai pendurar as chuteiras. Prestes a completar 70 anos, idade em que, obrigatoriamente, todos os servidores públicos devem se aposentar, Registro deixará o cargo que ocupa há quatro anos, tempo no qual viu alguns índices, mas não todos, que medem a criminalidade baixar nos 93 municípios que controla, que, juntos, representam uma população próxima a quatro mihões de habitantes. Na última sexta-feira, ele recebeu a reportagem em seu espartano gabinete no centro de Ribeirão. Ao contrário do que disseram alguns delegados mais próximos, parecia estar ansioso pela aposentadoria que já chegou. “Tenha certeza que trabalhei muito, mas é preciso reconhecer que apesar da mente ainda estar ágil, o corpo já não acompanha mais”. Na entrevista ao Comércio, o delegado Anivaldo falou da carreira, da família e quebrou a imagem de durão, dando longas risadas quando o assunto foi seu time do coração, o São Paulo, que levou de goleada do Palmeiras, domingo passado. Jogo que, para o seu desconsolo, assistiu no Estádio Santa Cruz, em Ribeirão.</p><p><strong>Comércio da Franca - Vamos começar pela comparação entre a instituição que o senhor encontrou e a que o senhor deixa.<br />Delegado Anivaldo Registro</strong> - Foram 47 anos dentro da polícia, sendo 38 como delegado. Nesse tempo todo, a polícia avançou muito. Há quatro décadas era um efetivo pequeno. Tínhamos Jeeps para trabalhar, e tudo era feito mais na raça. Falam que antigamente arrebanhavam policiais levando em conta o aspecto valentia. Hoje o policial é examinado pela sua inteligência e por talento.<br /></p><p><strong>Comércio - É comum notar nos policiais mais antigos um certo saudosismo em relação ao tempo que podiam agir com mais força...<br />Registro -</strong> Eu passei pelos anos da ditadura e acho que essa polícia autoritária não existe mais em nenhum lugar. Era uma polícia que se impunha pelo medo, quando você deve se impor pelo seu profissionalismo. A polícia que temos hoje é muito melhor que a de 30 anos atrás. Esse saudosismo não deve existir. O bom policial hoje é o que trabalha com a inteligência, não com a força<br /><strong></strong></p><p><strong>Comércio - O senhor está mais para a voz do governo que para seus subordinados em função do cargo que ocupa. Reivindicações das várias categorias, como as salariais, são justas em sua opinião?<br />Registro</strong> - Acho que a postulação é justa. O policial precisa de uma remuneração condizente com a função que ocupa na sociedade.<br /><strong></strong></p><p><strong>Comércio - Mais recentemente, os delegados iniciaram um movimento por mudanças na constituição, em que pedem reconhecimento do cargo como carreira jurídica, tendo alguns direitos já concedidos a juízes e promotores. O que o senhor acha desse movimento?<br />Registro</strong> - O delegado é um operador do Direito. Por que ser alijado dessa condição? Tem os mesmos direitos que um procurador, um promotor, um juiz É justa essa luta e confio na vitória da classe.<br /><strong></strong></p><p><strong>Comércio - A pedra no sapato da polícia em Franca é a Cadeia do Guanabara, que, superlotada, oferece riscos de todos os lados. Quando será solucionada essa questão definitivamente?<br />Registro </strong>- Não tem jeito, a população precisa ter paciência. Estamos resolvendo o problema com as sucessivas transferências. Também estamos esperando não apenas a construção do CDP de Franca, mas a conclusão do CDP de Serra Azul. Tem que existir um pouco de paciência.<br /></p><p><strong>Comércio - Apenas na seccional de Franca oito cidades estão sem delegado. O Estado preencherá esse quadro ou não?<br />Registro </strong>- Agora são sete, pois já mandamos um para Cristais Paulista. O delegado é importante porque ele personifica a polícia, mas também é importante ter policiais civis e militares que realizam o serviço. A falta de delegados sempre vai ocorrer. Dos 93 municípios do Deinter, mais de 30 estão sem delegados. As 147 vagas criadas recentemente serão para preencher os vazios existentes. Outros concursos, para peritos, escrivães e investigadores também foram autorizados, mas o processo para se criar um policial é demorado.<br /><strong></strong></p><p><strong>Comércio - Há poucas semanas, o Consórcio dos Municípios da Alta Mogiana preparou um ofício em que indicava o nome de Maury de Camargo, delegado seccional de Franca, para ocupar o seu lugar. Isso é possível?<br />Registro </strong>- O delegado deve se manter afastado desse assédio. No caso do Maury, ele sabe que não reúne condições técnicas para ocupar o cargo de diretor, porque não é um delegado de classe especial, condição essencial para o cargo. Pode ser que daqui a dois meses, se ele for promovido, possa ocupar, mas hoje, não.<br /></p><p><strong>Comércio - O senhor é muito ligado ao ex-delegado seccional de Ribeirão Preto, Benedito Antônio Valencise. O episódio envolvendo sua exoneração passou por cima de sua posição pessoal?<br />Registro </strong>- Eu estava de férias e não quero entrar em detalhes. Reservo-me ao direito de não comentar. Era próximo a mim e um dos grandes delegados que conheci e trabalhei. Já disse que Ribeirão sentirá falta dele, porque era um ótimo delegado operacional, sempre legalista. Pode ser que chegue outro melhor, mas... É a mesma coisa que tirar o Maury hoje de Franca. Vai desfalcar a cidade... <br /><br /><strong>Comércio - Como o senhor avalia a relação entre polícia e imprensa?<br />Registro </strong>- Acho que melhorou muito, mas a imprensa, de um modo geral, não conhece o funcionamento da máquina policial. Além disso, comete alguns equívocos, como quando acusa alguém sem que a pessoa tenha sido formalmente condenada.<br /><strong></strong></p><p><strong>Comércio - Pelo tamanho de sua população, Franca não figura entre as cidades mais violentas do Estado, mas sofre com o alto índice de furtos, principalmente de veículos.<br />Registro </strong>- Franca hoje é uma cidade tranqüila, mas já foi muito complicada, problemática. A cidade, que dentro do Deinter só perde para Ribeirão, dava mais trabalho. Foram ações tomadas que modificaram essa realidade. Concentramos esforços, chamamos a Polícia Militar para nossas reuniões. <br /></p><p><strong>Comércio - As duas instituições, do comando à base, costumam se dar bem na região?<br />Registro </strong>- Às vezes, essas disputas são verificadas por questão de vaidade. É lógico que o sujeito que realiza um belo trabalho quer ser o pai da criança. O fato é que o trabalho é concatenado, harmonizado. Dificilmente se verificam atritos entre uma polícia e outra. Hoje o vínculo entre os policiais é muito mais estreito.<br /></p><p><strong>Comércio - É quase uma unanimidade que o senhor continuaria no cargo se pudesse...<br />Registro </strong>- Se a lei permitisse, eu continuaria sim. Mas é preciso levar em conta que apesar da mente continuar ágil, o corpo envelhece. Estou me aposentando, para que dentro do pouco tempo que me resta, eu possa conviver com a família, os filhos e os netos.<br /></p><p><strong>Comércio - Dia 2 de abril o senhor acordará e dirá o quê à sua mulher, Jeni?<br />Registro </strong>- Vou dizer que graças a Deus estou vivo e vou viver minha vida de cidadão. Já venho me preparando. Pela primeira vez na vida, tirei 30 dias de férias. Não tinha horário para dormir nem acordar, não tinha telefonema, nada.<br /></p><p><strong>Comércio - O senhor termina bem a carreira?<br />Registro -</strong> Termino. Tenho mais alegrias para festejar, que decepções. <br /></p><p><strong>Comércio - O senhor tem alguma paixão no esporte?<br />Registro </strong>- Fiquei 55 minutos debaixo de chuva, numa fila interminável, para ver meu time do coração perder de 4 a 1; sou são-paulino.<br /></p><p><strong>Comércio - Que tristeza...<br />Registro -</strong> Não! Não é tristeza alguma, porque meu time está cansado de ganhar. Mas teve um pênalti que o Valdivia se jogou; não foi pênalti, nunca. No primeiro tempo, o São Paulo engoliu o Palmeiras. Desculpe, mas é o maior campeão de todos! <br /></p>
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