Mas com gado é que é diferente


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Principalmente na área da saúde. Haja vista para o atendimento prestado aos pacientes. Tudo começa já na recepção. Seja ele nas portarias de hospitais conveniados com o malfadado Sistema Único de Saúde (o conhecidíssimo SUS) ou das Unidades Básicas de Saúde da Prefeitura e até propriamente nos consultórios médicos. Os versos de Geraldo Vandré ficaram por demais ultrapassados. Neles, o boi era maltratado: “Porque gado a gente marca/ Tange, ferra, engorda e mata/ Mas com gente é diferente...”. E ponha diferença nisso. Atualmente não se marca mais gado com ferro quente. Tocar então nem se fala. Os animais são colocados com muita tranqüilidade e calma nos caminhões apropriados para transporte. No matadouro, a recepção é perfeita. São bem-tratados, para que o estresse não prejudique a qualidade final da carne! Mas com gente doente é mesmo diferente. A ala de Ortopedia da Santa Casa dá bem uma mostra do fato. Lá, os pacientes com braços engessados ou pernas imobilizadas são verdadeiramente tangidos corredores afora. Em casos mais graves, são transportados confortavelmente em cadeiras de rodas. Isso depois de ter ficado por umas duas horas aguardando o médico chegar. Com a chegada do facultativo, o traumatizado paciente, em todos os sentidos, é chamado para uma sala, como se fosse gado. Recepcionistas e enfermeiros mais parecem aparadores de touro. Ficam encurralando a preza para o toureiro, isto é, o médico, enfiar a espada. Só que o toureiro pelo menos se concentra naquilo que está fazendo. Já o médico, além da demora para chegar (certamente atarefado na sala de cirurgia!), faz o atendimento ao doente conversando. Não! Para o paciente, o médico não pergunta nada. Nem responde. Muito menos olha na cara dele. Ele conversa com outros médicos, que também estão atendendo simultaneamente outros pacientes. Quando não dialoga até mesmo com algum arquiteto sobre a decoração dos detalhes da sua nova construção. Outras vezes, chega ao cúmulo de atender alguém, pelo telefone, para negociar carro. Por outro lado, de vez em sempre a Santa Casa anuncia cortes no atendimento para pacientes do SUS. A verba pública não é mesmo elevada. Mas se bem administrada, não levaria a instituição ao colapso financeiro. Ainda mais que outros benefícios são destinados por conta de isenções de impostos. Agora, o que não dá para entender é como uma empresa, com problemas de caixa, possa agradecer através de anúncios pagos ou em outdoor a um deputado por ter intermediado numerário do governo. Ele nada mais fez que a obrigação. ANTÔNIO ARAÚJO é professor. E-mail: tonin.palavras@uol.com.br

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