Aumento da temperatura, derretimento das calotas polares, ciclones, tornados, desertificação. O sertão vai virar mar e o mar virar sertão? Não creio. O sertão será deserto; o mar também. Efeito sem causa? Não, é o princípio da reciprocidade, a reação da natureza aos ataques que ela sofre, como a poluição, a ocupação de áreas de preservação permanente (casas, chácaras, loteamentos clandestinos, “ranchos” em margens de rios), a devastação das áreas verdes, a supressão da vegetação protetora dos mananciais, o uso excessivo de agrotóxicos, o despejo de detritos industriais e esgotos nos rios. Hoje, quem quer comer legumes e outros vegetais cultivados sem pesticidas, chamados “orgânicos”, precisa pagar mais caro por eles. São produtos de luxo. Proprietários rurais que antes plantavam milho, feijão, algodão, etc. estão arrendando as terras para usinas canavieiras, pois assim ganham sem correr os riscos próprios de tais culturas. Será bom negócio? Em que estado fica o solo após anos de cultivo da cana-de-açúcar? Quais os efeitos da queima da cana sobre a terra fértil e sobre a vida animal?
O pensador francês Gustave Le Bon escreveu: “Totalmente indiferente ao destino do indivíduo, a natureza só se ocupa do destino da espécie. Perante ela todos os seres são iguais. A existência do mais pernicioso micróbio é cercada de tantos cuidados quanto à do maior gênio” (As Opiniões e as Crenças).
Violentar a natureza tem como efeito a perda da proteção que ela oferece. A destruição do meio ambiente, da biodiversidade, torna impossível a vida de inúmeras espécies. Não pense o homem que, acabando com outras formas de vida, ele fica “bonito no pedaço”. Ele também deixa de existir. Por isso convém repensar a forma de tratar o planeta e começar a harmonizar desejos humanos e natureza, formar uma cultura de preservação do mundo e de uso racional dos recursos naturais.
No texto “Cantei parabéns para o Tom”, no site Digestivo Cultural, Vitor Nuzzi observa: “Em mistura de bom humor e alguma amargura, com uma pequena ajuda dos amigos, Tom compôs uma versão em que, já nos anos 70, apontava a violência e a especulação imobiliária como males que tomariam conta (também) do Rio”. Refere-se à letra da música Carta ao Tom, Carta do Tom, de Toquinho, Vinícius e Tom Jobim, mais especificamente ao trecho: “Rua Nascimento Silva, 107/ Eu saio correndo do pivete/ Tentando alcançar o elevador/ Minha janela não passa de um quadrado/ A gente só vê Sérgio Dourado/ Onde antes se via o Redentor/ É, meu amigo, só resta uma certeza/ É preciso acabar com a natureza/ É melhor lotear o nosso amor”. O que sentiria hoje o saudoso Tom? Como será em alguns anos, com o aumento vertiginoso do número de veículos automotores, que amplia o caos no trânsito e a emissão de gases poluentes?
Mas o homem, além do mundo que o abriga, maltrata a própria natureza humana. O natural é cada vez mais substituído pelo artificial. Parto normal que nada; tem de ser cesariana. Tenta-se saciar a sede não com água, mas com refrigerante e até mesmo bebida alcoólica. Na beleza fabricada, a mulher curvilínea, siliconada, corre atrás do homem “turbinado”. Ser natural é antiquado. Preocupadas em encaixar-se em padrões estereotipados, em atender a exigências e convenções que intimamente desprezam, as pessoas ocultam a autenticidade e a espontaneidade. A frustração, a infelicidade, em muitos casos, deve-se a essa perda da essência, essa descaracterização. Quer ver tudo florescer? Deixe a vida viver, seja você mesmo, faça bem o que sabe fazer, rasgue o pano que lhe esconde, libere o humano que há no íntimo do seu ser.
PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro Pensando na Vida (disponível na Livraria Martins). E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br
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