A definição leiga de anencefalia é “monstruosidade consistente na falta de cérebro”, conforme expressa dicionário da língua portuguesa. Na linguagem científica, define-se anencefalia como malformação decorrente do não fechamento do neuroporo anterior do tubo neural do embrião, o que implica na ausência ou formação defeituosa dos hemisférios cerebrais. Pesquisas apontam diversas causas para a incidência da anencefalia, mas nenhuma delas é cientificamente comprovada.
Tratei do referido tema em monografia apresentada para obtenção do título de bacharel em Direito pela Unesp. Dentre os assuntos tratados, realizei uma abordagem jurídica dos direitos da gestante e dediquei trecho de uns dos capítulos a Marcela de Jesus Galante Ferreira, a anencéfala de maior longevidade já registrada no País.
O maior ganho com a realização do estudo foi ter conhecido pessoalmente Marcela e sua mãe Cacilda Galante Ferreira. Em visita a ambas, pude verificar o que essa deficiência representa na vida da família e o que significa o poder do amor materno.
As palavras pronunciadas por Cacilda Galante Ferreira ao relatar sua experiência com o diagnóstico de anencefalia emocionam, não pela tristeza do fato, mas pelo amor incondicional que demonstra ter sentido pela filha desde o início da gestação.
Após o nascimento de Marcela, Cacilda viu-se como fonte para a mídia regional e nacional e passou a ser procurada constantemente para responder sobre posições de especialistas sobre o “milagre” da sobrevivência do bebê. Chegaram a referir-se à Marcela em revista de representatividade nacional como “A menina sem estrela”.
Contrariamente à afirmação da revista, pude observar que Marcela possui não uma estrela, mas uma constelação inteira a seu favor. Seu tronco cerebral perfeito se desenvolve e adapta-se a funções que a princípio não seriam dele, o que possibilita sua sobrevivência, e isso mediante a proteção e cuidados intensos de uma mãe mais que zelosa.
Hoje, Marcela completará o seu 16º mês de vida e Cacilda parece que, enfim, conseguiu o sossego de que tanto necessitava para continuar a cuidar de seu bebê, sem que tenha de enfrentar as diversas opiniões emitidas sobre a deficiência de Marcela. Desfruta cada dia ao lado de sua filha, que preenche a vida da família com amor, alegria e fé.
Infelizmente não são todas as mulheres que apresentam a mesma força que Cacilda. Na maioria das vezes, o diagnóstico da anencefalia causa um sofrimento imensurável à gestante, a qual reluta em aceitar a realidade e não apresenta forças físicas e psíquicas para prosseguir com a gestação considerada inviável.
Em razão disto, a CNTS (Confederação Nacional dos Trabalhadores da Saúde) interpôs no Supremo Tribunal Federal a Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental de nº. 54-8, que se julgada procedente, autorizará a interrupção da gestação de anencéfalos sem a necessidade da autorização judicial expedida por juiz.
Acima da polêmica sobre o abortamento de anencéfalos está o fato de que Cacilda Galante Ferreira é um ícone de força e fé, demonstrando a todos que o verdadeiro amor materno está acima de qualquer imprevisto imposto pela vida.
SUELEN CHIRIELEISON TERRUEL é bacharel em Direito pela Unesp - Universidade Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, campus de Franca
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