Jogar papel no chão: três pais-nossos; “matar aula”, cinco pais-nossos e sete ave-marias; fumar ou tomar uma cerveja no fim de semana: cinco pais-nossos, cinco ave-marias e um salve-rainha; autopenitência em casos de apoio a pesquisa com células-tronco, inseminação artificial e ambição de ganhar na Mega-sena.
Você pode não acreditar, mas é assim que deve ser a vida de um católico devoto desde o dia 9 de março, quando o arcebispo Gianfranco Girotti oficializou outros sete pecados anunciados pelo Vaticano. Girotti é o responsável pela Penitenciária Apostólica da Santa Sé, nome pomposo que dá nova designação a um dos propósitos mais infames da história católica: a Santa Inquisição.
Desde que disse que os novos pecados estão valendo, nada de poluir o meio ambiente, acumular riquezas (algo contraditório em se tratando da Igreja Católica), gerar pobreza, consumir ou traficar drogas e violar os direitos humanos. Apoiar manipulações genéticas ou qualquer outro experimento moralmente discutível, nem pensar.
Agora, com a lista dos pecados ainda mais extensa, a solução para quem não quer pecar, é entrar em estado de vigília plena para não cair nas tentações do mundo moderno.
A decisão partiu do papa Bento 16 depois que percebeu que os pecados capitais, um pouco ultrapassados, já estavam caindo em desuso.
Agora, contextualizados com a globalização, as novas definições pretendem resgatar o sentimento de pecado e a prática da confissão. Se essa determinação realmente terá algum efeito prático na mudança de conduta ou se não passa de uma utopia religiosa, só o tempo vai dizer, mas, desde que foi anunciada, a novidade tem gerado polêmica, principalmente entre os jovens católicos que, em sua maioria, não conseguem admitir que agora, além de terem que prestar esclarecimentos à polícia caso venham a dirigir embriagados, vão ter ainda que acertar as contas com Deus.
Para saber o que eles pensam, a reportagem saiu às ruas na última sexta-feira e entrevistou 12 pessoas com idades entre 19 e 27 anos. Somente um se mostrou completamente a favor desta nova proposta da igreja. Os demais se queixaram, quase que unanimemente, do rigor excessivo dos novos pecados.
Mas enquanto para uns os pecados da nova era são motivo para o falatório, há quem não entenda tanto bafafá. É o caso do bispo Dom Diógenes, que não vê novidade nenhuma nesse anúncio. “Os pecados já existiam, a Igreja apenas explicitou aquilo que para nós, cristãos, já era uma falha”.
Ao contrário dos jovens, Dom Diógenes não vê nenhum ponto negativo na formalização dos pecados e acredita que eles poderão servir como ferramenta de reflexão. “Cada vez mais os homens se tornam livres e deixam de lado os mandamentos de Deus. Essa será uma oportunidade para que pensem nas próprias responsabilidades com relação à sociedade”.
Mas não seria justo, porém, que os homens tivessem o direito de pensar sobre suas próprias responsabilidades sem a culpa de estarem ferindo a Deus, caso não concordem ou infrinjam as “leis” católicas? Ainda há necessidade de a igreja ditar as regras da boa convivência? Para o teólogo Ricardo Veríssimo o homem ainda precisa de limites sejam eles civis ou religiosos e, por isso, a instituição católica usa de seu poder para tentar nortear os comportamentos humanos. “O Estado institui as leis, determinando o que se pode ou não fazer na sociedade. A Igreja, em nome da fé e da razão cristã, exerce seu direito espiritual em estabelecer os pecados aos que professam a fé católica. De certa forma, ela não está sendo invasiva”.
Invasiva, talvez não, mas superficial é como define o mestre em sociologia e professor da Unifran (Universidade de Franca) Agnaldo Barbosa. Ele também vê avanços na iniciativa da Igreja Católica, mas não os aprova. “Desde a Revolução Francesa a conduta humana em sociedade deve responder às leis dos homens e não as leis divinas.
A Igreja tenta acompanhar os novos tempos, mas ao mesmo tempo, reproduz o que fazia na Idade Média. Desde essa época a igreja não deve interferir em assuntos terrenos, deve preparar os espíritos”.
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