Centro da cidade é ponto rotineiro de prostituição masculina


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Um dos rapazes que atuam na Praça Nossa Senhora da Conceição como garotos de programa atende o telefone público: para muitos, esse é o melhor meio de conseguir clientes
Um dos rapazes que atuam na Praça Nossa Senhora da Conceição como garotos de programa atende o telefone público: para muitos, esse é o melhor meio de conseguir clientes
Quinta-feira chuvosa, 13 de março de 2008, 23 horas, Rua André Martins, em pleno Centro da cidade. Um Corsa preto apaga os faróis, diminui a velocidade e encosta próximo à sarjeta. Dentro do carro, um homem que aparenta ter 35 anos abaixa o vidro para conversar com Jorge*, um rapaz de 29 anos que há 24 deixou sua cidade natal no Norte do País para acompanhar os pais no sonho de uma vida melhor em Franca. Dez minutos depois, o Corsa arranca. Mais adiante, nos bancos da Praça Nossa Senhora da Conceição, em frente à Igreja Matriz, três rapazes aparentando ter não mais que 18 anos ocupam a calçada, um em cada ponta e o terceiro no meio do quarteirão. Em 30 minutos, todos já não estão mais lá. Entraram em carros que pararam e, depois de uma rápida conversa, partiram. O destino, normalmente, um motel à beira das rodovias vicinais da cidade. Sexta-feira, 14 de março de 2008, meia-noite e meia. Chove e faz frio. No quadrilátero formado pelas Ruas Saldanha Marinho, Monsenhor Rosa, General Carneiro e Major Claudiano, contam-se, pelo menos, seis rapazes parados em pontos estratégicos. Todos são michês, homens que vendem serviços sexuais a mulheres, casais e, principalmente, a homossexuais. O movimento é intenso. A maior parte deles se posiciona próximo a telefones públicos, que, em cerca de uma hora, tocam, em média, três vezes. A prostituição masculina nas ruas do Centro pode ser flagrada em qualquer dia da semana, sempre depois das 22 horas. São rapazes de boa aparência, facilmente confundidos com universitários. A maioria veste camisetas coladas ao corpo, normalmente sem mangas, calça jeans agarrada e de cintura baixa e tênis. No pescoço, invariavelmente está um colar de metal. Têm boa aparência e são jovens. Boa parte deles aparenta ter menos de 25 anos. Eles costumam ficar nas esquinas escuras ou sentados em bancos nas praças centrais. “Isso começou pra valer há cerca de um ano. No início, eram uns dois ou três que apareciam por aqui de madrugada e ficavam zanzando pela praça. Hoje são mais de dez que se espalham por todo o canto. Não sei onde isso vai parar”, disse uma moradora do prédio onde funciona a Acif (Associação do Comércio e da Indústria de Franca) há mais de 15 anos e que tem a vista do apartamento voltada para a praça da catedral. Ela pediu anonimato. Por uma hora de programa, cobram entre R$ 30 e R$ 50. A freguesia é 90% formada por homossexuais. “Mas atendo também casais e mulheres mais velhas”, conta Jorge, um moreno de 1m75, com cabelos cortados idênticos ao do ator Rodrigo Pavanello (que recentemente interpretou Adriano na novela Sete Pecados, da Rede Globo), cavanhaque e corpo musculoso. Nordestino, ele veio para Franca ainda menino, mas manteve o sotaque de suas origens. Entrou na prostituição há cerca de dois anos. Por noite, chega a atender até seis clientes. “O movimento é mais forte nos fins de semana próximo às datas de pagamento. Aí, meu telefone não pára e, algumas vezes, tenho até que dispensar clientes. Em dias de semana normais, atendo dois ou três só”. Por mês, ele diz conseguir até R$ 900 com os “serviços” que presta. “Gosto mais de atender mulheres. Elas são tudo de bom. Mas como o que eu gosto é de sexo mesmo, atendo também homens e casais”. Para o casal, Jorge costuma cobrar o dobro do preço de um programa normal. “Tem muito homem em Franca que gosta de trazer a mulher. Como são duas pessoas, não posso cobrar a mesma coisa. Eu dobro. Mas se for com a cara do cliente, aceito negociar”. Durante o dia, Jorge é açougueiro. No trabalho, ele garante que ninguém desconfia de suas atividades noturnas. “Eles nem sabem que faço isso. Também não me incomodaria se soubessem. Não devo nada a ninguém. Não estou roubando nem matando e tenho que pagar as minhas contas”. Ele costuma vir para o Centro pelo menos três vezes por semana. Seus pontos de atendimento ficam na Rua Major Claudiano. Fred* tem 23 anos e um lindo sorriso. O rosto parece de menino, mas o corpo é todo trabalhado em horas diárias de exercícios na academia. Com cerca de 1m70, o francano chama a atenção. Como os demais garotos de programa que trabalham no Centro, Fred se diz um novato neste ramo de negócios. “Comecei faz pouco tempo e faço isso porque, trabalhando normalmente, não consigo ganhar nem um terço do que recebo aqui”. Ele costuma ficar na Praça da Catedral, de quinta a domingo, até as 3 horas. “Quando o movimento é bom, estendo um pouco. Quando chove como ontem (sexta-feira passada), vou embora mais cedo. Com chuva, o negócio não rende”. Por mês, ele diz conseguir R$ 1 mil com a prostituição. Para conseguir os clientes, usa as lan-houses do Centro. “Entro nas salas de bate-papo da internet, aviso que estou na Praça e marco encontro com os clientes. Funciona bem”. Ele diz que cursa faculdade durante o dia e, à noite, ganha a vida como garoto de programa. Sobre o futuro, espera parar com os programas assim que se formar. “Não quero fazer isso o resto da vida”. (*) Os nomes foram trocados para garantir o anonimato dos entrevistados

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