<p>Filha de um homem alcoólatra, Eliana Justino viveu na infância e, dentro da própria casa, as agressões provocadas pelo vício do pai. “Ele agredia a gente, para matar mesmo”. Anos depois, quando já havia deixado São Paulo para viver em Franca, a comerciante aposentada descobriu que um dos cinco filhos era usuário de drogas. O rapaz tinha 22 anos. Em busca de socorro, recorreu à casa de recuperação masculina Proreavi (Projeto de Restauração de Vidas). A partir do contato com a entidade, Eliana percebeu muitas deficiências no atendimento para um público que é químico-dependente. Aos poucos, se envolveu no projeto e um ano depois abraçou de vez a causa, assumindo a presidência da entidade. Há nove anos, como voluntária, trava uma luta diária para o projeto não morrer. “Matamos um leão por dia. Pedir recursos para ajudar um dependente químico é muito difícil”.<br />Eliana está com 49 anos, completados na quinta-feira, 13. Nos últimos três, tem passado por sérios problemas de saúde. Sofreu dois infartos e descobriu que tem esclerose múltipla, uma doença grave e incurável. Eliana não enxerga mais com nitidez, tem fortes dores no corpo e chega a ficar dias seguidos na cama sem conseguir se levantar, além de internações freqüentes na UTI. Mas nem isso a desanima. Mesmo doente, ela não abandona o Proreavi. Nem que seja para acompanhar o trabalho de casa. “Enquanto tiver vida, vou me dedicar aos meninos (internos) porque eu acredito no que eu faço. E vale a pena, muito a pena”.</p><p><strong>Comércio da Franca - Como a senhora soube que um dos seus cinco filhos era usuário de drogas?<br />Eliana Justino </strong>- Isso aconteceu há dez anos. Descobri depois de uma broncopneumonia. No hospital, ele fez um exame de sangue e a médica detectou a presença de drogas. Fiquei totalmente perdida e sem ação. Não podia imaginar que o meu filho com apenas 22 anos era usuário de drogas . Ele ainda teve um surto psicótico, via coisas e cismava que estava sendo perseguido. Tivemos de mudar de casa por causa disso. Senti culpa e impotência e procurei uma instituição para ele que foi o Proreavi.<br /></p><p><strong>Comércio - E como a senhora se tornou presidente da entidade?<br />Eliana </strong>- Percebi que faltava de tudo lá. Era simplesmente uma casa onde colocavam as pessoas lá dentro e pronto. Não tinham preparo algum e viviam com muitas dificuldades financeiras. Não haviam psicólogo, assistente social, medicamento. Comecei a me envolver tanto até que o presidente, depois de um ano de abertura, abriu mão do cargo. <br /></p><p><strong>Comércio - E qual é ela?<br />Eliana</strong> - Responsabilidade, amor, respeito e tratamento digno. Porque aqui fora eles perdem referência, perdem tudo. Temos o caso de um senhor que estava vivendo no meio do mato, debaixo de uma lona preta, sem energia, sem água, sem condição alguma e com problemas de bebidas. Conseguimos os documentos dele e até localizamos a família no Ceará. Cuidamos da parte física e emocional.<br /></p><p><strong>Comércio - Como está o Proreavi?<br />Eliana </strong>- Atendemos 25 internos, de 12 a 76 anos. Todos passaram por uma triagem, porque damos prioridade aos mais carentes e em situação de risco. Temos uma lista de espera com 65 pessoas. Cada interno custa em média R$ 800 por mês. O gasto total mensal é de R$ 25 mil, que incluem o aluguel do escritório em Franca e arrendamento do sítio onde os internos ficam na estrada Franca-Ibiraci. Eles fazem cinco refeições por dia, têm médico, medicamentos e atendimento com psicóloga e assistente social. Trabalhamos com 12 funcionários, estagiários e oito voluntários. O ideal para o tratamento são noves meses, mas temos um senhor conosco há dois anos que não tem para onde ir. Não recebemos ajuda do governo. Dependemos de doações. Hoje em dia pedir para um dependente químico é muito difícil, mas a comunidade de Franca é maravilhosa e ajuda muito. E não importa o valor que recebemos. R$ 1 para nós já faz diferença; é um litro de leite a mais. <br /><strong></strong></p><p><strong>Comércio - Quais os planos do Proreavi para 2008?<br />Eliana -</strong> Temos um projeto de inclusão digital. Já estamos com o espaço físico, mas faltam computadores. A idéia é atender meninos de rua. Estamos atrás de patrocínio.<br /><strong></strong></p><p><strong>Comércio - Por que a senhora decidiu abraçar essa causa?<br />Eliana -</strong> Como consegui tirar meu filho das drogas, quis dar oportunidade para outras mães também viverem isso. É um trabalho difícil, mas, se de dez, eu conseguir tirar quatro, esses quatro vão deixar de maltratar muita gente e se maltratar também. <br /><strong></strong></p><p><strong>Comércio - Qual a história mais marcante nesses nove anos de Proreavi?<br />Eliana -</strong> A do senhor Aléssio Machado. Há uns três anos, uma pessoa me ligou dizendo que um senhor estava deitado no banco da praça na Vila Nova e que ele não se mexia. Fui até lá. Ele estava totalmente debilitado, tinha caído e quebrado a bacia e estava muito sujo, com cheiro forte. Nós o levamos até a instituição e, depois de dar banho, levamos até o pronto-socorro. Depois ele ficou muito debilitado e não tínhamos mais como tratá-lo, era caso de geriatria. Conseguimos uma vaga no Lar de Ofélia e, depois de um ano, ele morreu quando tinha uns 70 anos. <br /><strong></strong></p><p><strong>Comércio - O que motiva a senhora a ajudar essas pessoas?<br />Eliana </strong>- É algo que sinto muito forte. Eu venho de uma história de um pai alcoólatra e eu e minha família sofremos muito quando éramos pequenos. Então acho que isso vem desde pequena para que isso ocorresse na minha vida.<br /><strong></strong></p><p><strong>Comércio - O que acontecia na sua casa por causa do vício do seu pai?<br />Eliana -</strong> Agressão contra todos nós, minha mãe e meus irmãos. Meu pai era extremamente violento quando bebia e tentava nos matar mesmo. E quando não bebia era um excelente pai. Na época do meu pai, não existia casa de recuperação, só hospital para loucos. Hoje tenho certeza de que, se a pessoa quiser e se a gente der a oportunidade, ela se livra do vício. Sei que o que faço é uma gota do oceano, mas já pensou se outras pessoas fizessem um pouco também?<br /><strong></strong></p><p><strong>Comércio - A partir do contato com esse público, a senhora percebe que o consumo de drogas aumentou? <br />Eliana -</strong> Cresceu e muito. Pela facilidade de encontrar. Hoje em qualquer festinha que você for, encontra drogas. Se o Poder Judiciário, a comunidade e o poder público não fizerem alguma coisa, Franca vai por um caminho muito difícil de ser controlado.<br /><strong></strong></p><p><strong>Comércio - O que a senhora sugere para brecar essa trajetória?<br />Eliana -</strong> Primeiro, prevenir. Prevenir com palestras e educação. Mas não se pode esquecer de quem já é dependente porque não adianta educar e deixar de lado os que já apresentam problemas. Tem que ter uma política pública para o tratamento ser mais fácil e acessível. Eu atendo pessoas extremamente carentes, mas a maioria das entidades tem de sobreviver e faz isso cobrando, só que quem está nas drogas já perdeu tudo. A família perdeu, não tem condições financeiras. Para chegarem a pedir ajuda, têm de estar no fundo do poço. Precisa ser um espaço onde eles sejam respeitados e aprendam a respeitar.<br /><strong></strong></p><p><strong>Comércio - A senhora está com sérios problemas de saúde. Como ficam os trabalhos do Proreavi?<br />Eliana - </strong>Estou passando por uma situação meio complicada. De uns três anos para cá, tive dois infartos. Depois disso, tive um suposto derrame, que na verdade não era. Tive de fazer exames em outra cidade e descobri que estou com esclerose múltipla, uma doença rara, degenerativa e incurável. Me sinto extremamente fraca, cansada, com dormência nas pernas e vista embaçada. Mas, mesmo em casa, não deixo de estar aqui, de forma nenhuma. Eu sei de tudo que acontece aqui. Como temos profissionais, posso ficar em casa quando não estou legal. Tem dias que a fraqueza é tanta que nem andar consigo. Fico cinco, seis dias mal, melhoro e volto para cá. É uma doença um pouco traiçoeira, mas isso não me abate não.<br /><strong></strong></p><p><strong>Comércio - A senhora enfrenta dificuldades financeiras e graves problemas de saúde. Como manter a fibra?<br />Eliana - </strong>Eu acredito naquilo que eu faço. Eu sei que eu posso ajudar. Eu sinto que eu posso fazer alguma coisa ainda. Enquanto eu tiver força, eu vou fazer.<br /><strong></strong></p><p><strong>Comércio - A senhora é como a mãe do Proreavi?<br />Eliana - </strong>(risos) Sim, sou como uma mãe. Me preocupo com os meninos (internos) como me preocuparia com os meus filhos. Na verdade, sinto que precisam mais de mim que meus filhos, que estão bem, eles não.<br /></p><p><strong>Comércio - Quantas pessoas devem ter sido beneficiadas pelo Proreavi?<br />Eliana </strong>- O total geral dos nove anos eu não tenho, mas, em 2007, foram 960 pessoas entre internos e familiares. A família é co-dependente e passa por terapia também.<br /></p><p><strong>Comércio - Qual o índice de recuperação?<br />Eliana -</strong> A recuperação do Proreavi é boa: 60%. É por isso que fico tão motivada. Estamos no caminho certo. Plantamos uma semente nas pessoas que passam pelo Proreavi e essa semente pode germinar e dar frutos, mesmo longe da instituição. Mudamos os valores deles. Conseguimos mudar. Muitos que se recuperaram se casaram, têm filhos.<br /> </p>
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