A autoridade dos pais


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Até onde os pais são culpados pelos erros dos filhos? Esta pergunta emerge diante do alto índice de crimes praticados por jovens de todos os segmentos sociais, sob efeito de álcool, de drogas. Boa parte da juventude parece desnorteada. Os pais são responsáveis por essa perda de rumo? É certo que aos pais incumbe criar e educar os filhos. O comportamento de muitos jovens revela evidentes falhas na sua criação e educação. Não quero colocar os pais no paredão de fuzilamento. Também sou pai, sei das dificuldades e tenho muito a melhorar. Em regra, os pais querem a felicidade dos filhos e não desejam que pratiquem crimes. Muitos pretendem dar aos filhos coisas que eles, pais, não tiveram, e nada vejo de mal nisso. Porém, essa vontade de agradar veio acompanhada de excessiva liberalidade, que resultou no afrouxamento da autoridade dos pais. Não são raras as ocasiões em que, a contragosto, eles cedem a certos desejos dos filhos apenas para evitar confronto. Cheios de problemas, acham melhor permitir o que deviam negar, para assim verem-se livres e cuidar das próprias ocupações. É um erro básico. O que os filhos fazem precisa interessar aos pais. A crise de autoridade paterna permitiu que os filhos tomassem as rédeas. Há pais que tratam os filhos como finas peças de vidro que não podem cair. Com temor de magoar os filhos, evitam censurá-los, possuem uma excessiva preocupação de selecionar bem as palavras para não ferir-lhes o ego, não baixar-lhes a auto-estima. É preciso reverter isso e resgatar a autoridade dos pais. A criança deve respeitar certas regras. Para o seu próprio bem. Não há incompatibilidade em amar os filhos e ser rígido na imposição de correção e disciplina. Conciliar isso desde cedo é a melhor forma de definir a personalidade e o caráter dos filhos. Mas para uma boa criação não bastam palavras. A criança tem os pais como espelho, e é através das ações que se passa a imagem. No livro I de Os Ensaios, Montaigne diz: ‘...como é assim que as ciências, mesmo quando tomadas em linha reta, podem apenas ensinar-nos a prudência, a honradez e a firmeza, eles quiseram colocar de imediato suas crianças à altura dos fatos e instruí-las não por ouvir dizer, mas por experimentar a ação, formando-as e moldando-as vivamente, não apenas com preceitos e palavras, mas principalmente com exemplos e obras, para que em sua alma isso não fosse uma ciência, e sim sua compleição e hábito; para que não fosse uma aquisição e sim uma posse natural. A esse respeito perguntavam a Agesilau o que em sua opinião as crianças deviam aprender. ‘O que elas devem fazer ao serem homens’, respondeu ele’. Os pais criam os filhos para o mundo. Chega um ponto em que os rebentos têm de seguir sozinhos. A autoridade paterna bem exercida solidifica o caráter dos filhos e o ajuda a resistir e até mesmo a se fortalecer com o passar dos anos, para enfrentar o mundo, que é exigente, impiedoso e não dá nada de mão beijada. Os jovens precisam ter consciência da gravidade e do grau de reprovabilidade de certas ações. É perfeitamente possível aproveitar a juventude sem violar direitos alheios. Quem, durante o crescimento, incorpora valores morais e éticos, não tem dificuldade de harmonizar direitos e deveres e manter boa relação com o mundo. Se esses valores não são absorvidos na ten-ra idade, é muito difícil que venham a ser adquiridos depois. A firmeza na criação pode parecer penosa, mas, para os filhos, cair enquanto estão sob a proteção dos pais, aprendendo a andar, é a maior blindagem para os tombos que podem levar quando estiverem soltos no mundo. PAULO PEREIRA DA COSTA é promotor de Justiça e autor do livro Pensando na Vida (disponível na Livraria Martins). E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br

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