Se o sapato está furado, não se preocupe


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Você se prepara. Vai, com confiança, diploma debaixo do braço e o que dizer na ponta da língua, à entrevista com a possibilidade do emprego que sonha. Chega. Senta. É perguntado. Responde com convicção e conhecimento. Pergunta. É respondido. Parece que tudo caminha de forma a garantir um feliz rito de passagem. O cenário serve para a primeira entrevista de emprego, para o primeiro encontro com uma candidata a namorada séria, para a conversa com alguém que você conhece ou não, para falar na igreja ou para um auditório qualquer, para a reunião do ambiente de trabalho, para qualquer ação de inter-relacionamento pessoal. Se você cumpriu bem todas as etapas da preparação, não haveria razão para que seu objetivo não fosse alcançado, certo? Errado. O que se tem é um sem-número de “nãos” recebidos, frustrações por se saber preterido por outros que não tinham a metade de sua competência, ver a chance procurada escapar por entre os dedos. E, pior: sem compreender nada... Por que isso acontece? O segredo é simples: competência de conhecimento e discurso bem preparado são só 5% da capacidade de persuadir alguém. Os outros 95% são... gestual!!! Já ouviu falar disso? Pode ser que não, mas certamente já provou o veneno que deriva desse desconhecimento. Peça a alguém que se vista e fale bem para chamar um pintor e pedir um orçamento. Certamente vai ouvir algo como “para o doutor, faço um preço muito bom...”. Peça agora a alguém de modos e jeitos mais simples, para fazer o mesmo. Garanto. O preço será mais baixo. Dê-me uma resposta honesta para a seguinte situação: toca a campainha. Você vai à porta e encontra alguém mal vestido, pedindo para falar com você. Fica onde está e responde rápido, perguntando o que ele quer, disposto a acabar longo com aquele “inconveniente”. Vamos repetir: toca a campainha. Você vai atender e encontra um belo carro parado à porta e alguém, bem vestido, pedindo para falar com você. Quase sem pensar, você sai de onde está e vai até o visitante. Não é assim? Mais um exemplo: você chega ao evento para o qual foi convidado. Percebe então que todos estão de terno completo. Você veste uma camisa social, aberta no peito, sem gravata, uma roupa esportiva, que “não compromete em lugar nenhum”. Ainda asim, percebe olhares sobre você. Não entende. Você tem certeza de que carro é só um instrumento de transporte e, como tal, não precisa de muitos cuidados. Bastam óleo, combustível, uma lavadinha de vez em quando. Sai para seu compromisso. Cumpre seu papel e consegue convencer seu interlocutor a comprar seus serviços. Sai caminhando com ele e... entra no seu carro malcuidado... O acordo, nos dias seguintes, não sai e você fica reclamando da sorte, se perguntando onde foi que errou. É isso. A forma com a qual você se relaciona com o mundo é 5% de verbalização e 95% de apresentação. Seu discurso, aquilo que o cerca e o que faz devem ser condizentes. O mundo desconfia de quem diz uma coisa e faz, ou mostra, outra. Ao contrário do que você pode estar pensando agora, não é necessário que você gaste “os tubos” para estar em dia com a coerência. Bastam pequenos cuidados e, essencialmente, a certeza de que a imagem continua dizendo mais do que mil palavras. Berkeley, um pensador inglês antigo mais moderno do que nunca, dizia que ser é ser notado. Não adianta você saber tudo, poder tudo e ter tudo, se sua imagem não demonstrar... tudo! VESTUÁRIO O calçado que você usa não precisa ter grife e nem ser o mais caro que o dinheiro pode comprar. Basta estar limpo, bem cuidado, engraxado. As pessoas olham para você a partir dos pés. Roupas? Também não precisam ser dignas de reis e rainhas. Têm, isto sim, de estar limpas, rigorosamente bem passadas. CUIDADOS PESSOAIS Banho. Um perfume de aroma delicado (o perfume não deve ficar no ar depois que você passa, causando mais fofoquinhas do que encantamentos). Barba bem-feita (e se você usa barba cheia, ela deve estar aparada). Desodorante (dizem os especialistas que o “cheiro de humanidade” que depois de algum tempo você não percebe mais, causa estragos). Dentes limpos. Policie-se ao espelho, em ocasiões públicas. COMBINAÇÕES Meias brancas só com roupas esportivas. A cor das meias deve combinar com a cor dos sapatos e do cinto. Camisas, gravatas e ternos para homens; tailleurs, blusas, bolsas e cintos para mulheres devem ter tons ou subtons próximos. Esta é a receita para todos os horários. GESTOS Você está acompanhando bem. Gestual tem muito a ver com gestos. E com olhares firmes, convincentes. Jamais aponte alguém quando estiver falando. Nunca coloque a mão encobrindo a boca quando falar de alguém, pois isso é observável e conclusivo sobre más intenções. Você deve direcionar seus olhos aos olhos de seu interlocutor. É tímido e não consegue? Use a dica: focalize seu olhar ao meio dos olhos do interlocutor. Ele jurará que você está olhando no mais fundo de seus olhos. E não terá coragem de contrariá-lo. Mantenha o movimento de seus braços no espaço virtual que tem a dimensão exata de seu tronco. Não os balance para fora desta área. E, PARA DESCONTRAIR Ibrahim Sued, um dos mais importantes cronistas sociais do País, ao início de sua carreira, não se contrariava em andar com sapatos de sola furada, já que os dinheiros eram parcos. Punha papelão ao fundo, mas a parte do cabedal – a parte dos calçados que as pessoas vêem – estava sempre rigorosamente limpa, engraxada. Diziam seus amigos que “dava para ver a imagem do rosto da gente, neles”.

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