O Brasil produz, anualmente, levas de bons jogadores de futebol. Os exemplos são fartos. Costuma-se dizer que, se cada país pudesse participar de uma Copa do Mundo com três ou quatro equipes, as seleções nacionais poderiam, com facilidade, abocanhar todas as primeiras colocações.
Faz parte do Brasil formar bons jogadores. Jovens que surgem nos terrões, nas quadras e nas várzeas de todo o País. Nenhuma outra nação forma tantos jogadores de qualidade excepcional quanto o Brasil. Em nenhum local é possível ver o talento de um Ronaldinho Gaúcho, a vontade de um Dunga, a classe de um Falcão, o oportunismo de um Romário, a alegria de um Garrincha ou a majestade de um Pelé.
Cada um deles possui talentos inatos que, desenvolvidos, os tornaram referências não só para suas gerações, mas também para o futebol mundial. Nas outras nações, a coisa é diferente. Se no quesito qualidade não se pode exigir muito, a falta de talento extra é superada por profissionalismo, raça, vontade e disposição para melhorar os fundamentos e atingir o seu máximo.
O tema - que, a princípio, não tem nada a ver com o futebol - pode ser aplicado no setor calçadista. Basta um pouco de vontade e, porque não, imaginação. Resumindo a metáfora: se os estrangeiros não têm o nosso terrão, nós não podemos exigir, por outro lado, que um calçadista francano, que cresceu na Praça da Matriz e conhece, como expressão maior de arte, a Pinacoteca local, possua experiências de vida tão fantásticas quanto o italiano, que pode ver o Coliseu, em Roma, ou a Capela Sistina, no Vaticano, ou ainda beleza plástica de Veneza no seu cotidiano.
Nesse caso, torna-se mais fácil para um italiano entender a arte e transformá-la em produto, como no caso do design do sapato. Ainda assim, é possível, com um pouco de inspiração e disposição, o sapato nacional não fazer tão feio perto dos italianos. Basta determinação e raça, além de vontade.
Na última semana, o presidente da Assintecal (Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Couro, Calçados e Artefatos), Luiz Cláudio Amaral, esteve em Franca para a divulgação do Fórum de Inspirações Verão 2009, evento que reuniu, em Franca, os principais expoentes da moda para o setor calçadista. Acompanhado de Saulo Pucci, da Amazonas e vice-presidente da Assintecal, fez visita ao Comério onde debateu, com jornalistas, entre eles este colunista, o futuro do setor no País.
Foi um bate-papo interessante. Nele, fica evidente a diferença de mentalidade entre o setor calçadista do Sul brasileiro e o modelo francano. Enquanto os sulistas começaram a preocupar-se com aspectos como design e moda há décadas, em Franca esta parece ser uma preocupação que começa a chegar, só agora, às fábricas da cidade. Ainda assim, chega de maneira tímida.
Investir na contratação de grandes nomes do design mundial, realizar palestras e workshops, além de visitar, in loco, ambientes culturalmente importantes, como a Europa, é passo fundamental para modificar esta realidade. Pode parecer frescura, em um primeiro momento, mas é muito mais do que isso.
A indústria brasileira de calçados é, hoje, extremamente eficiente. Consegue produzir sapatos confortáveis a preços competitivos. Mas, infelizmente, ainda resume, via de regra, o mercado do calçado ao mercado da bateção de prego. É preciso dar um passo além, que só será dado com o foco em cada detalhe, em especial na moda, área onde estamos décadas atrasados. Podemos reverter o jogo, evidente, mas, para isso, é preciso investimento pesado, vontade e disposição para inovar e conhecer.
Talvez não sejamos capazes de formar, no curto prazo, um estilo de qualidade e moda internacionalmente conhecido - assim como a Itália não forma Kakás em série - mas, da mesma forma que no futebol, um time bem arrumadinho, com um ou outro lampejo de criatividade, também pode ser vencedor, como provam as seleções brasileira de 1994 e a alemã de 1990. Basta vontade e disposição.
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Se depender das grandes indústrias francanas, o setor calçadista pode esperar momentos complicados em 2008. A informação não é oficial, mas fontes seguras e com amplo conhecimento no setor dão conta que ao menos duas grandes de Franca estão mal das pernas. Ambas empregam mais de 500 funcionários e exportam parte de seus produtos. Mais detalhes na próxima edição.
E BOAS NOTÍCIAS
Por outro lado, duas empresas francanas que passaram recentemente por problemas parecem ter reconquistado solidez no mercado. A Sândalo, que mudou o processo de produção recentemente, prevê aumento na produção, com vendas especialmente para o mercado interno. Atualmente com 2,6 mil pares produzidos, através de terceirização, por dia, a empresa espera fechar o semestre com 3,2 mil. Uma boa notícia depois da tormenta registrada no ano passado.
AMAZONAS
E por falar em reestruturação, a Amazonas, que passa por profissionalização desde o segundo semestre de 2007, continua lutando para conter a crise. Saulo Pucci, que responde pela empresa, diz que não é fácil. O controle é tão rígido que até pequenas despesas são controladas. Isso sem falar nas demissões. Parte do jogo, segundo ele, para tornar a empresa viável.
PÃO DE QUEIJO
Segundo Pucci, até os pãezinhos de queijo consumidos devem ser justificados. A afirmação, em tom de brincadeira, dá uma idéia sobre o momento da empresa. Bom sinal, já que, nos tempos atuais, boa administração e gestão são as chaves para o sucesso. Sucesso à empresa.
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