Viver pode, até mesmo, ser considerado um ato banal quando não há nada de diferente para se experimentar. A vida porém ganha outro sentido quando cada dia se transforma em um novo desafio. E aí, haja coragem para lidar com a rejeição, enfrentar os olhares desconfiados e se acostumar com a idéia de ser uma pessoa dependente. É assim a vida dos deficientes físicos que precisam de uma cadeira de rodas para se locomover e têm que conviver de perto com o preconceito e o descaso.
Mas se engana quem pensa que essa realidade é um mar de desgosto e tristeza. Gratas pela vida, essas pessoas dão a volta por cima e garantem que ser feliz é muito mais do que simplesmente andar, por mais que essa ação ainda as faça muita falta.
Somente em Franca, pelo menos 31 mil pessoas são portadoras de deficiência, seja ela física, mental, motora, auditiva ou visual. No Brasil esse número chega a quase 25 milhões. Imagina se todas elas estivessem fadadas à revolta e ao desespero?
Foi o que pensaram as irmãs Daniela Maria da Silva, 26, e Daiane Maria da Silva, 24. Elas sofrem de uma doença genética chamada amiotrofia espinhal progressiva, que causa fraqueza nos músculos principalmente da bacia e parte superior das coxas e, desde que nasceram, não andam. Mas depois que ganharam as cadeiras de rodas resolveram mudar de vida.
“A cadeira foi o nosso primeiro passo para a liberdade. Mesmo tendo que enfrentar as pessoas nos encarando e a dificuldades de acesso (buracos, sarjetas altas, falta de espaço nas calçadas, entre outros), passamos a sair mais e assim fazer amigos e conhecer o nosso bairro”, disse Daniela.
Elas não se locomovem sozinhas nas cadeiras de rodas. A musculatura dos ombros também é afetada pela doença, mas desde então convencem seus irmãos (são mais três) e amigos a levarem-nas para curtir a noite. “A gente vai muito ao Montana (casa noturna), ao Shopping, a shows na Expoagro, assistir teatro no Sesi e íamos muito lá na antiga boate Rodeio. Antes, tínhamos mais vergonha porque as pessoas nos olhavam demais e algumas negavam ajuda, mas agora as coisas estão melhorando. A maioria das pessoas nos trata bem”, disse Daiane.
Elas não trabalham por conta da deficiência. Por isso passam o dia bordando, assistindo TV e “mexendo” no computador que Daniela conseguiu comprar há poucos meses. Mas a lista de preferências não pára por aí. “A gente também paquera, fica, namora e até pensa em casar, se for com uma pessoa que valha a pena”, confessa Dani.
E não pense que filhos é uma realidade distante para elas, tanto que Daiane puxou a fila e já tem dois filhos do primeiro namorado. “Fiquei grávida e saí da escola, parei no colegial. Hoje o Carlos Eduardo tem três anos e o Kaio, dois. Eles ficam na creche o dia todo”, fala a mãe um pouco tímida.
Daniela, concluiu o ensino médio. “Não foi fácil ter que ir à escola todo dia, mas doença ou a gente aceita ou se mata. Eu queria ser mais livre, trabalhar para ter dinheiro para sair, mas aprendi a aceitar a minha realidade e tentar ser feliz. Só assim vamos “abrir a cabeça” das pessoas”, desabafa Daniela.
REAPRENDENDO A VIVER
Com o ex-taxista Ricardo Teodoro dos Reis, 30, a realidade foi diferente. Há seis anos, depois de ter sido assaltado e esfaqueado, perdeu os movimentos da bacia e membros inferiores.
Agora, na cadeira de rodas, assume que precisa, a cada dia, aprender tudo novamente mas isso não o desanima. “É claro que não queria isso para mim, mas já que é assim serei feliz 24 horas por dia. Afinal não é porque uma pessoa anda que ela é mais feliz que eu”.
Ricardo tenta levar uma vida normal. Depois do acidente se formou em direito, estuda para ser aprovado em concursos públicos e não deixa de namorar e ir aonde quiser. “Aprendi a me virar, perdi a vergonha e agora peço ajuda. Às vezes levo um “não” na cara, mas eu aprendi a ter paciência. Elas não fazem por mal, simplesmente não sabem lidar com os deficientes”.
Em relação à dificuldade enfrentada em estabelecimentos que não são adaptados à sua nova condição, Ricardo lamenta e afirma que esse “detalhe”, faria toda a diferença. “Prefiro freqüentar lugares onde eu me sinta bem, onde eu não tenha que pedir ajuda. Isso me traz ainda mais ânimo para viver bem”.
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