<p>Há uma semana, o representante comercial José Cândido Chimionato, 63, tomou uma decisão difícil. Como provedor da Santa Casa de Franca, hospital que atende pelo menos 600 mil pessoas da cidade e da região, anunciou cortes nos serviços prestados. A justificativa: o hospital não recebe por procedimentos feitos além da cota contratada com o Governo do Estado. Para piorar, ainda foi excluído de um programa de ajuda financeira às Santas Casas do Estado, por meio do qual vinha recebendo R$ 600 mil a mais por mês. </p><p><br />Na prática, a limitação de atendimento à quantidade contratada significa a suspensão de mais de 10 mil procedimentos por mês. Só nesta primeira semana, 12 pacientes com câncer deixaram de ser atendidos em sessões de quimioterapia. Duas delas acabaram conseguindo vaga depois de recorrer à Justiça. Queixas e reclamações não faltaram.</p><p><br />Foi em meio a esta confusão que, na tarde de quinta-feira, na sala da Diretoria Administrativa da Santa Casa, José Chimionato conversou com o Comércio. A seguir, confira os principais trechos da entrevista.</p><p><strong>Comércio da Franca - Neste fim de semana, os cortes no atendimento da Santa Casa completam uma semana. As queixas por parte dos pacientes não atendidos são grandes. O que o senhor tem a dizer?<br />José Cândido Chimionato -</strong> Primeiro, eu queria dizer à população de Franca que as medidas tomadas são desagradáveis. Entendemos que é a população mais pobre que sofre as conseqüências. Mas elas foram adotadas para que cumpríssemos estritamente o contrato com o Governo do Estado. Nós estávamos fazemos mais serviços que o contratado e não estávamos recebendo. O hospital precisa de dinheiro para sobreviver. Quem nos levou a tomar essa medida foi a própria Secretaria de Saúde Estadual. Eles precisavam fazer a regulação da entrada de pacientes no hospital e não cumpriram com seu papel. Jamais conseguiram controlar a entrada de pacientes de acordo com o contratado. Portanto, a Santa Casa se viu obrigada, ela mesma, a fazer essa regulação para não ter de fechar as portas por causa da falta de recursos.<br /></p><p><strong>Comércio - A que o senhor atribui os problemas financeiros da Santa Casa?<br />Chimionato</strong> - Eu diria que a culpa é do sistema de saúde que ainda não conseguiu encontrar os recursos necessários para o financiamento. É difícil você colocar a culpa em um ente público só. A saúde é de responsabilidade dos três poderes - União, Estado e Município. Nesse momento, a gestão da saúde em Franca é do Estado de São Paulo. Nós entendemos, então, que ele deveria prover os recursos necessários para, pelo menos, equilibrar financeiramente a Santa Casa.<br /></p><p><strong>Comércio - Esses problemas da Santa Casa têm solução? Qual?<br />Chimionato </strong>- Acredito que sim.Creio que a solução passa por uma reavaliação de tudo aquilo que está sendo feito. A Santa Casa de Franca precisa ser retirada de uma cesta comum das Santas Casas e outros hospitais filantrópicos e ser olhada de uma forma diferente. Ela é sozinha na região onde atua em alta complexidade e não tem outro hospital público ou uma congênere para dividir os serviços. É aquela que mais atende pacientes SUS, proporcionalmente ao seu número de leitos no Estado. Acho que a solução é essa - olhar a Santa Casa como parceira e destinar para cá os recursos financeiros necessários para que ela possa sobreviver e continuar prestando serviços de excelência.<br /></p><p><strong>Comércio - Nos últimos três anos, a Santa Casa anunciou dez vezes cortes no atendimento, e sob pressão, sempre recuou. Dessa vez vai ser diferente?<br />Chimionato - </strong>Primeiro, eu diria que, desta vez, não estamos cortando atendimentos. Estamos adequando a entrada de pacientes ao que foi contratado. Continuamos atendendo dentro da cota da gestão do Estado, daquilo que foi acordado. Enquanto não se resolver essa questão do pagamento dos serviços extras prestados e do programa Pró Santas Casas que deixou de entrar nos cofres da instituição a partir de janeiro, vamos manter nossa postura. Quem tem que negociar conosco agora é o Estado. Ou ele compra mais serviços e paga por eles ou encaminha os excedentes para outra unidade.<br /></p><p><strong>Comércio - Mas os pacientes podem morrer à espera de uma decisão do Estado...<br />Chimionato</strong> - Espero que isso não ocorra. Espero que o Estado consiga cumprir seu papel encaminhando pacientes para a rede de atendimento.<br /></p><p><strong>Comércio - Mas, se o Estado não fizer, pessoas podem morrer...<br />Chimionato </strong>- Infelizmente é um risco que nós corremos. Espero que isso não aconteça.<br /></p><p><strong>Comércio - As pessoas estão recorrendo à Justiça para serem atendidas. O que o senhor pensa sobre isso?<br />Chimionato </strong>- A Santa Casa vive no regime da legalidade. Cumprir uma decisão judicial é nossa obrigação. Ao buscar a Justiça, essa pessoa está fazendo valer o seu direito, mas a instituição também vai buscar essa mesma Justiça para fazer valer os seus. Alguém vai ter que pagar essa conta.<br /></p><p><strong>Comércio - Por que é tão difícil resolver os problemas financeiros da Santa Casa?<br />Chimionato</strong> - Eu não diria que é só a Santa Casa de Franca. Diria que todas as filantrópicas de saúde do Brasil que atendem ao SUS no volume como atendemos estão na mesma situação que nós. O principal problema nosso hoje é o volume de atendimentos.<br /></p><p><strong>Comércio - Por que a Santa Casa vive pedindo dinheiro, mas não mostra transparência divulgando salários, por exemplo?<br />Chimionato</strong> - Nós temos um impedimento legal. O salário é protegido por lei e quem o divulga está sujeito às penas legais. Não temos o direito de dizer quanto o A, o B e C ganham. Podemos dizer que a folha de salários da Santa Casa é X, isso, sim, é público. Agora abrir por indivíduo, não é possível. A Santa Casa é auditada por várias instâncias do Poder Público, temos uma auditoria própria e já abrimos para a própria Secretaria de Saúde para que mandasse uma equipe de auditores para ver a nossa situação. Entendo que, do ponto de vista administrativo, ela está adequada. Em estrutura hospitalar, também está. O que realmente nos leva a ter problemas de caixa é a tabela do SUS que hoje está defasada em 23% por procedimento. <br /></p><p><strong>Comércio - A situação financeira está ruim e o senhor não nega. Por que, então, continua contratando pessoas nas áreas administrativas?<br />Chimionato -</strong> Essas contratações que você diz podem ser substituições. Aqui é uma empresa que entra e sai gente todos os dias. Agora, para administrar um complexo como a Santa Casa, com quase 1,4 mil funcionários e 250 médicos, eu preciso ter profissionais competentes aqui dentro e profissional competente não vêm para ganhar um salário mínimo. Com pessoas competentes já está difícil, imagine se não tivesse uma equipe de profissionais altamente qualificados, o que seria disso.<br /></p><p><strong>Comércio - Por que a Santa Casa não consegue convencer Estado e prefeituras a ajudá-la financeiramente?<br />Chimionato</strong> - Qualquer acordo com as prefeituras da região passa primeiro pela Prefeitura de Franca. Isso porque Franca significa cerca de 85% dos nossos atendimentos. Se eu resolver com Franca, resolvo, então, 85% dos nossos problemas. E o prefeito tem se manifestado, sempre que questionado sobre isso, que transferiu a gestão da saúde para o Estado e não tem mais nenhuma obrigação com a Santa Casa. Agora estamos em um impasse. O Estado diz que só coloca a Santa Casa de Franca em seu programa de ajuda financeira se as prefeituras, ao menos aquelas que pertencem à microrregião, também ajudarem. Até o momento, o prefeito de Franca diz que não ajudará. Precisa ficar claro que, para nós, não importa de onde o dinheiro virá, o importante é que ele venha.<br /></p><p><strong>Comércio - Se o dinheiro não chegar nem do Estado, nem das prefeituras, como fica?<br />Chimionato </strong>- Se não vier, vamos continuar com o impasse. A Santa Casa não vai ceder de jeito nenhum.<br /></p><p><strong>Comércio - Como o senhor vê o futuro da saúde em Franca e da Santa Casa?<br />Chimionato</strong> - Eu disse inúmeras vezes que, por aqui, já passaram tantos beneméritos, tantas pessoas de bem que dedicaram uma parcela de suas vidas, que os espíritos dessas pessoas pairam nessa fundação fazendo com que ela sempre fique de pé. Então acredito que ela não vai fechar. O que a Santa Casa pode, eventualmente fazer, é readequar seus serviços, aumentando a participação de convênios, buscando um plano de saúde próprio, enfim, aumentando as suas receitas única e exclusivamente para continuar atendendo à população do SUS. <br /></p>
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