Passadas quase cinco décadas da revolução feminina, as mulheres francanas ainda têm muito o que caminhar quando o assunto é igualdade no mercado do trabalho. Apesar de hoje representarem quase metade dos trabalhadores da cidade, na média, elas ainda ganham quase 20% menos que os homens e dominam a classe de empregados formais que recebem um salário mínimo ou menos por mês.
As constatações têm por base o último relatório da Rais (Relação Anual de Informações Sociais) com dados de 2006 emitido pelo Ministério do Trabalho. É também em Franca que a média salarial feminina (2,31 salários mínimos) é uma das piores do Estado. Entre as 23 cidades paulistas com mais de 300 mil habitantes, as francanas têm a segunda pior média salarial. Só perdem para as mulheres de Carapicuíba, munícipio da Grande São Paulo, onde a média salarial feminina é de 2,24 salários.
Se o cenário atual ainda está distante do ideal, há vinte anos, o quadro para as mulheres era ainda pior. Em 1986, as trabalhadoras de Franca ganhavam metade do salário pago aos homens. Naquele ano, em média, cada empregado do sexo masculino ganhava o equivalente a 3,36 salários mínimos, enquanto a média das mulheres não passava dos 2,18 salários mínimos.
Para Aécio Flávio Lemos, professor de economia da Unifran (Universidade de Franca), com domínio em Recursos Humanos, a explicação para a diferença de remuneração homens e mulheres está nas características de inserção feminina no mercado de trabalho.
Elas costumam concentrar sua atuação no setor de serviços e em ocupações pouco qualificadas e de baixa remuneração. “É uma questão de mercado. Em categorias mais baixas, elas executam o mesmo papel do homem, mas recebem menos por causa do aumento da oferta de mão-de-obra. O número de mulheres no mercado cresceu muito nos últimos anos. Além disso, a mulher virou arrimo de família e se submete a baixos salários por necessidade”.
Os números comprovam a afirmação do professor. Hoje, das 28.670 mulheres que trabalham com carteira assinada em Franca, 37,3% estão no setor de serviços. Além disso, elas representam 54,3% dos trabalhadores que recebem um salário mínimo ou menos.
Outro economista, o também professor e mestre em Gestão Empresarial, Daltro Oliveira de Carvalho, vai além. Para ele, a baixa valorização do trabalho feminino está associada a uma questão de costume, de cultura do brasileiro. “A mulher conseguiu seu espaço, mas ainda está longe do ideal, pois sua valorização é menor”.
Mas se engana quem pensa que os baixos ganhos delas estão relacionados a falta de estudo ou qualificação. Pelo contrário, o levantamento do Ministério do Trabalho revela que a mulher tem estudado mais e alcançado mais postos de chefia e uma trajetória profissional ascendente. “Dos anos 90 para cá, a mulher tem investido mais na sua formação. Antes, ela não tinha atuação, ao contrário de agora, onde em muitos casos a procura por qualificação é maior entre as mulheres se comparado aos homens”, explicou Lemos. Pelos dados, no intervalo de 20 anos, a representatividade das mulheres entre os trabalhadores com ensino superior completo saltou de 42% para quase 60%. Hoje de cada 10 empregados com um diploma universitário, seis são mulheres.
Com 28 anos, a coladeira de peças Joelma Aparecida Pereira retrata essa realidade. Seu primeiro emprego foi aos 16 anos para ajudar na renda da casa. Hoje, ela continua a morar com os pais, tem o ensino médio completo e um salário de R$ 600. Não satisfeita, ela cursa técnico em enfermagem com o sonho de ingressar e evoluir na carreira. “A gente precisa agarrar as oportunidades que surgem e não ficar parada. A mulher evoluiu, mas, se não batalha, ela é vencida pelo preconceito”.
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