Aos 11 anos, M. é aluna da 6ª série. Durante três dias, ela e uma amiga saíram de casa fingindo que iam para a escola, mas, na verdade, “matavam” aula. No terceiro dia, a irmã mais velha de Maria descobriu a mentira e contou para a mãe. Com medo de apanhar, a menina tomou cerca de meio copo de água sanitária e, com uma faca de cozinha, tentou cortar um dos pulsos. Por sorte, o objeto fez apenas um arranhão. A tentativa de suicídio aconteceu na última quarta-feira na casa da amiga de M.
Confusa, a garota disse que bebeu água sanitária por medo da reação da mãe quando soubesse das faltas às aulas e feriu o pulso esquerdo porque pensou que pudesse estar grávida. “Fiquei com medo de ela me bater muito”.
M. perdeu a virgindade em janeiro ao manter relações sexuais com um amigo, de 16 anos, que mora no mesmo bairro, e disse ter usado preservativo, mas desconfiou da gestação porque a mãe teve o mesmo receio. “Todo mundo ficou falando e fiquei com medo de ter acontecido”.
Quando encontrou a filha na casa da amiga, a mãe ficou muito nervosa. Ao ver que a menina estava passando mal com dor de estômago e de cabeça, a levou ao Pronto-Socorro Infantil. “Estava trabalhando quando minha filha avisou que a irmã tinha faltado da escola. Voltei e ela estava escondida na casa da colega passando mal no banheiro”.
Para a mãe, a filha ingeriu produtos tóxicos e machucou os pulsos por medo mesmo. “Além da escola, ela se ‘perdeu’ (manteve relações sexuais) com um rapaz e estava com medo que eu descobrisse”. A faxineira tem mais três filhos e disse manter uma educação rígida, mas sempre com diálogo. “Eu converso, mas nem sempre eles me obedecem”.
Ela soube que a filha não era mais virgem no mesmo dia da tentativa de suicídio. A amiga de M. foi quem contou. Preocupada, levou a filha para fazer exame de urina na UBS (Unidade Básica de Saúde) próxima de sua casa, mas o resultado de gravidez deu negativo. “Ela é magra, mas a barriga estava inchada, por isso me preocupei”.
A mãe procurou o Conselho Tutelar ainda na quarta-feira com a filha e a amiga para denunciar as faltas à escola. O Pronto-Socorro Infantil também informou os conselheiros sobre a tentativa de suicídio. A garota será encaminhada pelo órgão ao atendimento psicológico. A primeira sessão acontecerá já segunda-feira, 10. “Vamos monitorar a família com atendimentos domiciliares”, disse o conselheiro Lucas Verzola.
O delegado Dalmo Polo, que responde pela DDM (Delegacia de Defesa da Mulher), disse que intimou mãe e filha para conversar na terça-feira, mas ainda não sabe se haverá investigação. “A tentativa de suicídio é um crime de ação privada, que depende da denúncia da mãe, que, por enquanto, disse que não quer prosseguir com o caso. Falarei com ela na semana que vem e, se mudar de idéia, inicio os depoimentos”. Foi registrado ontem pelo Conselho Tutelar um boletim de tentativa de suicídio, mas o caso só deve prosseguir se a mãe quiser.
(*) os nomes não foram revelados para preservar a identidade das entrevistadas
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