A aventura da caminhada


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Quer experimentar um esporte de risco que exija o máximo de atenção, vocação para o des-conhecido, sorte e disposição física? Tente o trekking (caminhada). Esporte saudável para os músculos, pode ser praticado em Franca sem maiores problemas. Basta deixar o carro em casa e tentar cruzar 2 ou 3 km das ruas da cidade a pé sem chegar com a pressão nas alturas, ânimo próximo aos calcanhares e a sensação de ser uma pessoa de sorte - muita sorte - por ter atingido seu destino e chegado inteiro. É um exercício de paciência. Algumas vezes duvido que alguém consiga sentir qualquer manifestação de prazer - exceto talvez o masoquista - em caminhar pela cidade. Vamos caminhar um pouco juntos: a largada é no portão de sua residência. Para reforçar sua segurança imagine o trajeto - mas não esqueça que os sentidos das vias são inexistentes aos pedestres - sempre optando pela menor distância entre dois pontos, evitando subidas íngremes e descidas arriscadas (como se em Franca isso fosse possível). Prepare-se: você está entrando em terreno desconhecido e perigoso. As calçadas são radicais - metade íngreme demais para o calçado, metade escorregadia demais para qualquer ser humano - mas são bonitas em sua maioria. Afinal, calçadas são para decorar a fachada das casas. Ninguém manda você andar por elas. Recomendo o uso de um calçado próprio para trekking nos pés e uns dois pares extras a tiracolo. O primeiro desafio deste esporte é você conseguir caminhar pela calçada de uma quadra inteira sem necessitar descer para a rua. Para acentuar a emoção alguns obstáculos foram colocados sob medida: carros (“Estou só esperando um amigo. Saio já!”), placas publicitárias, gaiolas, pilhas de caixas, caçambas, mesas e cadeiras, além, é claro, dos óbvios suportes para lixo, plantas que insistem em sair do espaço das fachadas e fugir para as calçadas e - o maior dos obstáculos: as rampas de garagem. Sem estas, a emoção seria mínima. Quem nunca sonhou tropeçar, escorregar ou - o máximo da aventura - torcer o pé numa rampa de garagem preparada especialmente para quedas de crianças e idosos? Fico imaginando se os autores desses desafios ficam escondidos com binóculos para observar o resultado de tanta engenhosidade... Se você estiver disposto a obstáculos variados, inclua no trajeto áreas industriais. Saltar corpos deitados, marmitas e mesas de truco improvisadas entre as 11 e 12h24 é algo, no mínimo, original. As esquinas formam o ponto alto do passeio. Motoristas adoram enfeitar as faixas de pedestres com seus possantes, o que força o trekker aventureiro a recortar carros e desviar às pressas de motos e bicicletas oportunistas. Estes locais oferecem um jogo que exige intuição aguçada: o “tente adivinhar para que lado o motorista virará”. As luzes de pisca, para você que ainda não sabe, só são usadas em comemorações de jogos de futebol e para burlar multas(?) em filas duplas. Aos domingos você poderá praticar o esporte em família. As autoridades de trânsito até colaboram com o aumento da diversão, retirando os guardas municipais que monitoram o trânsito central e que só garantem a travessia nas faixas de segunda a sábado. Vamos lá! Deixe de corpo mole e engesse um pouco sua vida! ILUSTRES DESCONHECIDOS Pedestres não têm vez nem nas estatísticas - que avaliam de melancias a aviões. Não existem dados específicos sobre vítimas de acidentes de trânsito em que a vítima seja um pedestre. A estimativa extra-oficial, porém, estima algo em torno de 6% do total das mortes no país. Cerca de 3 vezes mais que em países do primeiro mundo. COVARDIAS A frota automobilística do Brasil encontra-se entre as dez maiores do mundo. O número de idosos no país aumenta ano a ano. Somente em Franca são formados 500 novos condutores a cada mês. As autoridades se preocupam com o caos que vem se instalando no trânsito local, mas nada fazem pelos ilustres desconhecidos pedestres. APLICAÇÃO DAS LEIS Amarelada e empoeirada, certamente existem leis e normas que regulamentam a construção, uso e manutenção de calçadas. Alguém precisa pegar um espanador e se dispor algum dia a lê-las. Quem sabe alguém se digna a coloca-las em prática? LEMBRETES De carro você anda, em média, a 30 quilômetros horários. Um pedestre a 3. Adivinhe: quem se molhará mais num dia de chuva? E, por fim, você, que hoje anda motorizado, lembre-se: pelo menos por alguns instantes ao dia você também é pedestre. *ALEXANDRE FISCHER é publicitário e jornalista. Integra a equipe de design gráfico do Comércio da Franca. Escreve como interino.

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