Sonhos adiados


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Vinte e seis anos atrás eu era um jovem recém-casado, morando num pequeno apartamento em São Paulo e trabalhando em minha própria agência de publicidade, se é que aquilo podia ser chamado assim. Eu era diretor de arte, mas minha paixão era o cartum. Conheci os irmãos Chico e Paulo Caruso, Laerte, Angeli, Alcy, Negreiros e toda a turma que despontava. Ganhei dois prêmios no Salão de Humor de Piracicaba, um deles na categoria profissional, batendo os bambas que publicavam nos grandes jornais. E recebi o prêmio das mãos do Henfil! Meu sonho era ser cartunista. Entre 1977 e 1981 publiquei semanalmente crônicas e cartuns no Jornal da Cidade de Bauru, numa coluna chamada Vírgula. Alguns meses depois de casar enfrentei um dilema. Eu ganhava quase nada na agência. Meus trabalhos como cartunista não existiam. Não consegui emplacar os cartuns em nenhum grande jornal. Não vendo futuro, decidi procurar um emprego fixo, em que pudesse ficar uns seis meses até montar outro negócio para o cartunista deslanchar. Respondi a um anúncio de uma empresa que procurava um desenhista de catálogos e fui escolhido. Do dia para a noite passei a ser funcionário registrado de uma grande empresa multinacional, a Albarus, fabricante de autopeças. O cartunista virou metalúrgico, com salário pontual, benefícios e uma coisa sensacional: segurança. Tomei então outra decisão séria: guardei meus bicos de pena, meus papéis Schöeller e minha máquina de escrever e mergulhei na construção da carreira de executivo de multinacional. Quatorze anos depois cheguei a diretor da empresa, na qual estou até hoje. Mas uma coisa me atormentava. Nasci com talento para desenhar e escrever e, para seguir carreira de executivo, simplesmente o desprezei. Eu havia desistido de meu sonho. E me sentia culpado por isso. Tudo mudou quando retornei de minha viagem ao Everest em 2001 e decidi, aos quarenta e cinco anos de idade, que era hora de reviver o sonho. E desde então estou escrevendo e desenhando cada vez mais. Como executivo, sinto-me realizado profissionalmente. Como escritor e cartunista sinto-me feliz... Dá pra sacar a diferença? Ao passar a barreira dos cinqüenta anos abracei novamente o sonho do garoto de vinte e seis. Foram o escritor e o cartunista que moldaram o Luciano que pinta e borda no universo corporativo. No mundo deles passarinhos falam. Mesas andam. Tudo é possível. Eles me deram um olhar diferenciado, irreverência e bom humor. Eu já tinha isso tudo incubado? Provavelmente. Mas foi o exercício da escrita e do desenho que rompeu as barreiras, os filtros e censuras e me ensinou a enxergar o mundo de um jeito diferente. Em contrapartida, o executivo deu ao cartunista e ao escritor os sensos de disciplina, planejamento, execução e visão de negócios. Tornei-me um cartunista escritor que está executivo... Nestes vinte e seis anos jamais desprezei meus talentos ou desisti de meu sonho e esta é a reflexão que compartilho. Eu os estava polindo... LUCIANO PIRES é jornalista, escritor, conferencista e cartunista

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