Oito horas da noite, para muitos, ainda é hora de curtir os filhos brincando na rua, arriscar um papo com os vizinhos na calçada ou ir ao mercado a pé. Mas, para boa parte da população de Franca, isso não é possível. Quando escurece é hora de se recolher em casa até amanhecer. Sem iluminação pública, estar na rua é um risco.
Enxergar o que está a poucos metros é um desafio, vencido apenas em dias de lua cheia ou quando os carros passam com faróis acesos.
A zona sul abriga um destes pontos onde as pessoas vivem às escuras. No Aeroporto II, os moradores cansaram de pedir mais iluminação. Na Rua Coronel Víctor Ribeiro, um trecho de 350 metros até possui postes, mas não há lâmpadas. Outras partes da via têm luzes. Há um ano e meio, um abaixo-assinado foi feito pelos moradores para liquidar o problema, mas ele ainda não surtiu efeito. A Prefeitura não explica a interrupção.
A escuridão impede as pessoas de circularem pelo bairro depois que o sol vai embora. “Não saio à noite. É uma escuridão só. Tenho medo mesmo é de gente viva. É fácil se esconder com mato alto e sem luz. Não passo ali à noite nem morta”, disse Maria dos Santos, 56.
A ampla Avenida São Vicente, no Bairro Belvedere Bandeirante, tem uma pista iluminada e outra totalmente escura. À noite, é impossível enxergar de um dos lados o que acontece na outra parte da avenida. Bem próximo a esse trecho, a Avenida Jaime Tellini também vira um trem fantasma de tão escura.
Por ironia, bem ao lado da CPFL Paulista, uma vila na Avenida Eufrásia Monteiro Petráglia não tem iluminação. Depois das 23 horas, quando os moradores dormem, o lugar vira um breu. Do portão de entrada, é impossível enxergar as casas ou os carros. A iluminação para os 50 moradores só existe quando as luzes dos alpendres das dez casas estão acesas. “Moro aqui há 21 anos e não conseguimos que fossem instalados os postes até agora. Só há promessas políticas”, disse a pespontadeira Cristina Teodoro, 43.
No Residencial Dona Maria, a falta de asfalto e mato alto são agravados pela ausência de luminárias. A escuridão predomina num trecho de 200 metros. Quem se arrisca, passa apuros. A dona de casa Taíse Vaz, 25, tem muitas histórias de mulheres que bateram em sua porta pedindo socorro depois de passar pela escura Avenida Monteiro Lobato. “Elas estavam sendo seguidas ou foram cercadas por homens. É terrível morar nessas condições”, disse Taíse Vaz, 25, dona de casa.
SEM LUZ NO FIM DO TÚNEL
O engenheiro, líder da CPFL Paulista, Luís Carlos da Silva, disse que a Prefeitura é a responsável pela iluminação pública. “O município define onde, a quantidade e a potência das lâmpadas e contrata nossos serviços. Depois da instalação, assumimos a manutenção”. Em Franca, a companhia conserta em média 600 defeitos por mês. Os estragos são detectados a partir de vistorias e reclamações dos moradores. “Problemas do tipo devem ser avisados pessoalmente na empresa ou pelo telefone 0800 010 10 10 que providenciamos os reparos”.
A luz parece estar longe de chegar a esses bairros. Consultada a respeito, a Prefeitura pouco acrescentou. O secretário de Finanças, Sebastião Ananias, se preocupou mais em atacar do que dar respostas satisfatórias sobre o assunto. Ananias atacou a imprensa, os contribuintes e até criticou pontos já iluminados em Franca.
Não há planos de ampliar a rede de energia elétrica, o que não difere dos últimos dois anos, quando pouco mudou. Franca está hoje com 30.319 pontos de iluminação pública. Em fevereiro de 2006, eram 30 mil, segundo reportagem do jornal feita naquela época. Resta a quem vive às escuras ter paciência para esperar pelo dia em que seus endereços serão iluminados.
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