Há 39 dias, a professora Kelly Cristina Diniz, 37, moradora da cidade de Guará, passou por uma cirurgia para a retirada de nódulos nos seios e axilas. Ontem, ela faria a primeira sessão de quimioterapia no Hospital do Câncer de Franca. Chegou à cidade cedo acreditando que, até o meio dia, estaria liberada para voltar para casa. Mas teve de retornar antes do que imaginava. Ela teve seu atendimento negado porque o Governo do Estado se recusa a pagar procedimentos excedentes à Santa Casa, que, por sua vez, não quer atender sem não receber. Resultado: Kelly passou a quarta-feira chorando desesperada em busca de uma solução. “É triste ter que ficar se humilhando. Cheguei a pensar em desistir”, disse.
Kelly mudou de idéia ao lembrar dos três filhos (18, 15 e 6 anos) e ter o apoio do marido. Decidiu procurar a Justiça para fazer valer o direito de ser atendida em Franca. Antes, ela havia ido até o DRS-8 (Departamento Regional de Saúde), órgão vinculado ao governo estadual e que regula os atendimentos públicos, e chegou a voltar ao Hospital do Câncer tendo em mãos uma autorização de atendimento. “Mesmo assim não me aceitaram. Mandaram eu procurar meus direitos. Foi o que fiz”.
Kelly descobriu os nódulos na mama e na axila há nove meses, mas só em dezembro teve confirmado o diagnóstico de câncer, “era véspera do meu aniversário quando o médico me disse que eu seria encaminhada para a oncologia, fiquei desesperada”, disse. A professora fez a cirurgia no dia 23 de janeiro e reagiu bem ao pós-operatório. Agora, precisa de tratamento para combater a doença, mas não consegue.
A situação da professora e de outro paciente de Franca será discutida hoje pela manhã em audiência que o promotor de Justiça Décio Piola fará com os diretores da Santa Casa e DRS-8. “Não dá para ficar fazendo ping-pong com essas pessoas. Há situações extremas que precisam de acompanhamento. Amanhã (hoje) esses casos devem ser resolvidos. A solução não será apenas para esses dois, mas para todos que estão indo e voltando ao hospital e DRS”, disse Piola.
Aos 64 anos, com câncer no colo do útero, a aposentada Carmem Vioto, de Rifaina, viveu o mesmo drama de Kelly na terça-feira. A Secretaria de Saúde daquele município e familiares da aposentada procuraram a Justiça para garantir seu tratamento no Hospital do Câncer de Franca. Ainda ontem, o promotor de Pedregulho, Alex Pires, entrou na Justiça com pedido de liminar e, agora, espera o parecer do juiz Luiz Gustavo Rezende. “O pedido é para que o hospital receba e atenda a paciente imediatamente”, disse o promotor.
A família tem presa. Rosângela de Lourdes Vioto, filha de Carmem, disse que a mãe não pode esperar mais. “O estado dela piorou hoje (ontem). Ela teve febre e sentiu muitas dores nas pernas. Não conseguiu nem almoçar e passou o dia deitada”. A aposentada também sofre de diabetes, obesidade, hipertensão, tem um pulmão paralisado e depende de aparelho de oxigênio 24 horas. “Ela tem que começar o tratamento logo. Não pode esperar mais”.
Desde que a Santa Casa anunciou a suspensão no atendimento, no dia 1º de março, doze pacientes esperam a liberação para iniciar o tratamento de quimioterapia. Ontem, segundo a assessoria de marketing do hospital, não houve recusa a nenhum novo paciente. No caso da professora Kelly, a suspensão havia sido feita na terça-feira, junto a outros dez pacientes com câncer. “Essa paciente estava na lista dos novos que iniciariam as sessões de quimioterapia”, disse a assessora.
O corte do atendimento na Santa Casa e nos hospitais do Câncer e do Coração se mantém até que o Estado faça os pagamentos devidos dos procedimentos autorizados extracontrato. De acordo com a diretoria da Santa Casa, desde que o Estado assumiu o gerenciamento de vagas do SUS, em julho de 2007, o hospital cobriu R$ 1,2 milhão de procedimentos em excesso.
Apesar de confirmar que autorizou mais procedimentos do que o contratado, a Secretaria Estadual de Saúde ainda não sinalizou ajuda à Santa Casa. Ontem, diretores da instituição e técnicos da Secretaria de Saúde estiveram reunidos em São Paulo e, durante todo dia, discutiram a situação do hospital. Procurada na tarde de ontem, a assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde disse apenas que uma nova audiência, desta vez com o secretário Estadual de Saúde Luiz Roberto Barradas Barata, está programada para terça-feira, dia 11. “Desse encontro deve sair uma solução para o problema da Santa Casa”, disse o assessor.
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