O fim da era dos gigantes


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UM EXEMPL0 -  André Luiz Camargo Santos e Delcides Rosa Santos perderam seus empregos em grandes empresas e abriram um negócio próprio: “Não tivemos alternativa”
UM EXEMPL0 - André Luiz Camargo Santos e Delcides Rosa Santos perderam seus empregos em grandes empresas e abriram um negócio próprio: “Não tivemos alternativa”
O sapateiro Delcides Rosa Santos, 63, foi chefe de corte de uma empresa calçadista por 17 anos consecutivos. Em 94, a fábrica, que chegou a ter 700 funcionários, fechou as portas. Santos ficou sem emprego. Passados alguns anos, André Luís Camargo Santos, 39, filho de Delcides, também perdeu seu posto no setor de corte de outra grande empresa da cidade. Por coincidência, o mesmo se repetiu com Andréia, filha de Delcides e irmã de André. Sem alternativas, a família montou uma banca de corte no quintal de casa na Vila Rezende. A trajetória da família Santos traduz a realidade vivida pela cidade nas duas últimas décadas: o fim das grandes indústrias e a proliferação dos microempreendimentos. Dados do mais recente levantamento do Ministério do Trabalho, feito com base na Rais (Relação Anual de Informações Sociais), mostram que, em vinte anos, o número de fábricas francanas com mais de 100 funcionários caiu pela metade. A análise se torna ainda mais assustadora quando são levadas em conta apenas as indústrias com mais de 500 funcionários. Das 16 existentes em 1986, apenas três continuariam funcionando 20 anos depois. Se as grandes indústrias fecharam, as micro (com até 9 funcionários) viveram uma explosão: mais que quadruplicaram, saltando de 366 unidades para 1.441. Sozinhas, já representam mais de 50% do setor industrial de Franca. Professor de Economia na Unifran (Universidade de Franca) e mestre em Gestão Empresarial, Daltro Oliveira Carvalho atribui a mudança no perfil da economia industrial da cidade ao despreparo dos administradores das grandes fábricas francanas para enfrentar um mercado globalizado e de livre concorrência. “Nestes 20 anos, foram muito poucos os empresários que investiram em profissionalização e em produção. A maioria decidiu, tarde demais, se preocupar com adaptação à nova realidade econômica, que exige mais eficiência e investimento. Estes, claro, acabaram não sobrevivendo”. Para Carvalho, o fato de boa parte das grandes empresas da cidade ter administração familiar contribuiu para a decadência. “Em empresas familiares, como as de Franca, as modificações administrativas e a profissionalização são sempre mais complicadas”. Para explicar o fim da era das gigantes francanas, o economista e professor do Uni-Facef (Centro Universitário de Franca), Hélio Braga Filho, ainda aponta o fato da maioria das grandes fábricas centrar mais de 50% de sua produção no mercado externo e não se preparar adequadamente para enfrentá-lo. “O que vimos nos últimos anos é uma desvalorização acentuada da moeda americana, um aumento da concorrência desleal e uma crescente busca por mais qualidade. Os francanos não estavam prontos para isso”. Téti Brigagão, diretor comercial da Calçados Sândalo, que chegou a produzir 4 mil pares de sapato por dia, concorda. “No auge da fábrica, enviávamos ao exterior entre 60 e 70% de nossa produção, mas, com a constante desvalorização do dólar e a concorrência, fomos perdendo o lucro. Em 2005, chegamos ao ponto de perder dinheiro para cumprir os contratos de exportação. Tínhamos que fazer algo. Em 2006, iniciamos uma reestruturação”. A empresa que chegou a ter mais de 600 funcionários possui hoje apenas 30, dedicados exclusivamente à área de criação de design e à parte administrativa. A produção propriamente dita foi repassada para pequenas empresas. “Nos livramos do ônus da produção, dos problemas que ela gera e passamos a fabricação dos sapatos para pequenas e médias empresas da cidade. Foi isso que nos salvou”. Hélio Braga diz que o modelo de produção adotado pela Sândalo e que vem crescendo em número de adeptos em Franca não é exclusividade local. “Desde o início da década de 90, ele se prolifera pelo mundo e, mais tardiamente, pelo Brasil”. Exemplos clássicos são a Nike e a Arezzo, que sequer possui fábrica. Os efeitos para a economia da cidade são sérios. “Quando um município deixa de ter grandes empreendimentos e passa a se pautar por micro e pequenas empresas, acaba se fragilizando. Economicamente, isso é péssimo. Mas, em Franca, isso teve um efeito positivo que foi a diversificação. Os empresários buscaram alternativas ao calçado que, acreditava-se, seria eterno na cidade. Hoje essa visão não existe mais”, disse Carvalho. Para o secretário municipal de Gestão Financeira e Planejamento, Sebastião Ananias, a mudança no perfil da economia da cidade é um problema. “Quando uma grande empresa quebra, isso significa um abalo social. Aumenta o desemprego e cai a arrecadação. Ainda bem que, apesar do fechamento das grandes, pequenas e microempresas surgiram. Pelo menos, a população continuou empregada”.

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