Os alarmes e os alarmistas


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Noites atrás resolvi caminhar para aproveitar a brisa noturna que uma passageira estiagem propiciava. Distraído entre os poucos ruídos de uma calma noite de segunda-feira em bairro próximo ao Centro, fui interrompido algumas vezes por sons que - até bem pouco tempo atrás - tinham fortes significados: alertas de emergência que deveriam ter minha - e de toda a vizinhança ao redor - atenção e reação imediatas: ligar para a polícia. Até pouco tempo uma jovem soltando a plenos pulmões um estridente grito, acompanhado por um pedido de socorro - alto o bastante para ser percebido por alguns quarteirões - seria o suficiente para que todos nas redondezas corressem em seu auxílio. Confesso que me detive a tempo de vislumbrar o vulto de um homem entrando sorrateiramente pelo portão de uma casa bem acabada, de onde saía o grito. Hesitei em correr por segundos suficientes para ver - serelepe e risonha - uma adolescente sair pelo mesmo portão acompanhada da figura e com ela, brincando, prosseguir para a rua. Comportamento corriqueiro, nada estranho, nem incomum. Nada mesmo? Se fosse uma agressão real, ninguém teria socorrido!? E quando estas situações são reais, o que fazemos? Nada. Se fosse este o fato, os poucos segundos pelos quais me detive poderiam ser a diferença entre a vida e a morte de alguém. Catastrófico em minha análise? Sim. Mas temos reais motivos para não o sermos? Alguns passos adiante o alarme de um carro dispara. Nem olhei para o lado, pois não precisava. O que eu desconfiava se confirmou: o alarme tocou pelo mau uso do motorista. Incrivelmente, poucas quadras além, o alarme de uma residência dispara. Olhei apenas o suficiente para perceber a dura que o filho levava da mãe pelo descuido com o controle. Mas o problema não reside em uma visão catastrófica ou fatalista. Reside na mudança de atitude, na perda de valores fundamentais à boa convivência humana: atitude social. Ao considerar este tipo de brincadeira como corriqueira e comum, expomos - a nós mesmos e aos demais - ao total e completo distanciamento. Talvez poucos se preocupem em abrir a porta, provavelmente nenhum arriscará mais que alguns centímetros de cabeça além da soleira, certamente nenhum chamará pelas autoridades. Gritos lançados por brincadeira e estridentes alarmes de veículos e residências disparados pela distração e mau uso por seus responsáveis criaram uma nova cultura: ‘Não estou nem aí’. Hoje percebo que a esmagadora maioria nem esboça mais que uma carranca por poucos segundos ao ouvir um grito nas proximidades de sua casa. A cultura atual prega: ‘Se o alarme toca, é o dono. Bandido não deixa tocar’. Encurtei meu passeio motivado pelo desagradável pensamento que insistia invadir minha mente: se gritos de socorro e alarmes - nossa defesa e proteção - foram criados para nossa segurança, e hoje sofrem esta banalização, até que ponto podemos contar com estes recursos? Resumi, portanto: a minha segurança, a sua segurança, estão totalmente comprometidas pela irresponsabilidade de alguns e pela displicência de outros tantos. Voltei para casa e bloqueei qualquer futuro estímulo de caminhar para curtir a brisa noturna, tendo o cuidado de transmitir à minha pequena filha uma frase repetida incansavelmente por meu pai (pelo visto, hoje fora de moda): ‘Não grite em falso, pois no dia em que for sincero ninguém acreditará’. estatísticas SURPREENDENTES Segundo a publicação especializada Security, em pesquisa realizada junto a presidiários autores de roubos a residências, os resultados foram, no mínimo, de causar espanto: 79% preferem invadir residências com muros mais altos, pois oferecem mais “privacidade” a seus movimentos durante o delito; 60% utilizam-se da escalada para estas invasões e 12% aproveitam-se de descuidos dos proprietários em deixar portões destrancados. Somente 2% utilizam arrombamento ou chaves falsas. ECONOMIZANDO NA PRÓPRIA VIDA Segundo uma das empresas do ramo de monitoramento particular de Franca, a grande maioria dos disparos de alarmes em residencias vazias, deve-se à má qualidade dos produtos utilizados e/ou instalação realizada por profissionais mal preparados; Essa é a famosa economia burra. Há dinheiros economizados, que se tornam fortunas roubadas. O RANKING DA IRRESPONSABILIDADE Após campanhas de cons-cientização junto aos proprietários de equipamentos de segurança residencial / comercial / industrial, reduziram-se em muito os casos de disparo acidental de alarmes (por manuseio incorreto e/ou irresponsá-vel). Atualmente apenas 50% dos disparos são acidentais. Antes respondiam por mais de 70% dos atendimentos. INTERINO Viajo por alguns dias. A interinidade desta e da coluna do próximo sábado é exercitada por Alexandre Fischer, pu-blicitário e jornalista do Comércio da Franca. Suas habilidades não estão limitadas às funções que desempenha no time de diagramação deste jornal. Possui também o olhar adequado para observar o mundo que o rodeia e “redescobrir” coisas rotineiras, que a gente sabe que existem mas não dá mais atenção. Estou certo de que ele manterá acesa a chama que temos teimado em publicar aqui. Aconselho. (Luiz Neto)

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