‘Pedofilia é crime. Em casa é um horror. Cerca de 80% de casos de pedofilia acontecem na casa das vítimas. Pais, padrastos e tios são os principais agressores’. Esta é a mensagem de uma campanha da OAB-SP, inscrita num cartaz em que uma menina com olhos de horror parece calar um grito de socorro na garganta, em razão da mão que a sufoca.
“Nana nenê que a Cuca vem pegar”. A letra é da canção de ninar (sic), cantada por décadas, cuja profecia maldita se realiza na figura desses “Cucas”, sempre à espreita do momento oportuno para pegar. As mulheres chefes-de-família compõem o grupo mais vulnerável em razão da dependência de outras pessoas que a ajudem no dia a dia com os filhos.
A revelação da jovem campeã Joanna Maranhão, que aos nove anos foi abusada pelo próprio treinador, pessoa de confiança da família, remonta a visão da menina do cartaz da OAB. O mesmo grito sufocado por mãos assassinas, que se configura nas mãos daqueles que não tiveram a sensibilidade de identificar no seu comportamento, algo estranho. A denúncia só foi possível através de um sofrido processo terapêutico. Sua confissão é advertência ao esporte, que mantém sob tutela crianças e adolescentes, muitos vivendo nos alojamentos dos grandes clubes, na esperança de um futuro promissor. Longe da família, é preciso que estejam seus dirigentes atentos para vigiar, senão a Cuca vai chegar mesmo, se é que já não chegou. A Cuca traiçoeira está sempre à espreita de sua vítima, de um descuido, e busca primeiramente despertar a confiança dos pais, como nesse caso, para depois agir impunemente.
Joanna Maranhão não perdeu as forças, lutou contra as águas turvas da vida e as águas das piscinas que lhe deram tão honrosos títulos para alegria dos brasileiros. Alegria a custa de sacrifício e lágrimas!
“A minha mãe trabalhava muito e eu ficava muito com ele. Era uma relação de confiança. Acho que os pais precisam estar mais presentes e ter uma relação mais aberta com seus filhos”, afirma a nadadora em entrevista ao “TV Sport News”. Em seguida, a mãe afirma que achava que isso tudo podia ser fantasia de cabeça de criança.
Ninguém percebeu, nem mesmo a escola, que detém uma posição privilegiada para perceber o problema ou finge desconhecer. Os índices de notificação nas escolas para autoridades competentes são muito baixos em todo País, de acordo com Marina Rezende Bazon, na Revista A Escola, da Editora Abril. Ela é coordenadora do Gepdip (Grupo de Estudos e Pesquisas em Desenvolvimento e Intervenção Psicossocial) da USP, em Ribeirão Preto.
A razão da subnotificação dá-se ao fato de educadores ficarem temerosos em se envolverem, serem chamados a depor e piorar a situação das vítimas com a denúncia. Porém, esse papel fundamental precisa ser reforçado. Os profissionais precisam ser permanentemente capacitados e apoiados para adquirirem a segurança necessária ao cumprimento da Lei que os obriga a denunciar. “Em 70% das denúncias de agressão física contra crianças no País, a agressora é a mãe, e em média dezoito mil crianças são vítimas de violência doméstica no Brasil”. Queda do berço, surra com vara, acidente de carro, afogamento, estupro, são acontecimentos bem diferentes com uma característica em comum. Configuram-se na primeira causa de morte em crianças de um a seis anos no Brasil, de acordo com Helena Oliveira, oficial de Projetos do Unicef para a Infância.
Nana nenê, mas nana com um olho aberto, porque a Cuca, realmente, pode vir pegar...
MAUS-TRATOS, VAMOS FAZER UM TRATO?
É conhecendo o inimigo que estratégias de combate para derrubá-lo são elaboradas. Franca não possui ainda uma análise situacional das causas da violência. O Conselho Municipal da Criança e do Adolescente com insuficiência de recursos, não consegue criar ou praticar projetos importantes para a acabar com a violência.
Enquanto isso, empresários e cidadãos continuam doando ao Governo Federal, o que não é uma boa parceria. Se nada mudar...
HOSTILIDADE, UM MAU TRATAMENTO
Muitas crianças são agredidas verbalmente com insultos, depreciação ou críticas excessivas, intimidação ou ameaças de abandono, condutas ambivalentes e imprevisíveis ou de dupla mensagem, isolamento, rechaço das iniciativas de apego e/ou exclusão das atividades familiares ou de autonomia por qualquer membro adulto. Se nada mudar...
É DOANDO QUE SE RECEBE
Se não for no amor pode ser na dor. É possível chegar antes da dor de perder um jovem ou criança. A pessoa jurídica poderá destinar recursos para o Fundo da Criança e do Adolescente do Município.
Esse fundo é gerido por um Conselho, formado por um colegiado representante da sociedade civil e do poder público. É só ligar e pedir informações pelo telefone 3711-9000. Pessoas jurídicas poderão doar até 1% do que devem para o Leão. Pessoas comuns, até 6%. O importante é chegar antes da tormenta, pois “quem semeia ventos colhe tempestade”.
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