Matutando o matuto...


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A história se deu lá pelas bandas do pé da serra, numas das divisas de São Paulo e Minas. Nos elevará o espírito conhecer um personagem cativante que habita os nossos campos, o caboclo, sertanejo, caipira, campesino... Ou seja, o típico matuto! Matutar o ‘matuto’ não é tarefa muito simples, mas é surpreendente. Sua educação e conhecimento derivam da herança cultural familiar, responsável pela sua formação. Buscar compreender seu comportamento como gente é encantador. A maioria deles possui uma encantadora timidez diante de coisas ou pessoas que desconhecem. Coçando o queixo, ele iniciou a prosa. Uma ajustada no chapéu e eis que surge inteiro, em sua sensatez. Os olhos transmitem sinceridade distinta, algo raro de se ver entre os civilizados da urbanidade. As palavras fluem de sua boca naturalmente, num ritmado vagaroso e desprendido de qualquer regra da Língua Portuguesa. Em meio aos risos que entremeavam o período dos causos que me contava, seus trejeitos caipirescos eram espirituosos e ingênuos. O café forte e quente fora servido em caneca esmaltada que já apresentava sinais do tempo, o que apartou o sono quando passava da meia-noite. No radinho de pilha tocava uma “moda de viola”, onde as inconfundíveis vozes de Lio e Léo interpretavam “Riozinho”, que canta a natureza, amores, esperanças e sonhos... Chamou-me a atenção uma das estrofes daquela doce canção: “Riozinho amigo, quantas vezes assistiu / Acenos de quem partiu / encontro dos que chegaram / Foi testemunha de muitas juras de amor / quantas lágrimas de dor / suas águas carregaram”. A sensibilidade do compositor em captar o “belo”, a interpretação emocionante dos cantores e o ambiente bucólico deram asas à minha imaginação em conceber um “riozinho” que testemunhara tantos acontecimentos envolvendo vidas, sonhos, esperanças e desilusões... Em meio àquelas sensações vivenciadas, segundo o matuto, pelo “moço da cidade”, beberiquei mais um pouco de café sob a luz do lampião que exalava cheiro de querosene pelo ar. Possuído daquele sentimento nobre que a simplicidade de tudo aquilo propiciava, como a um presente de Deus, confesso que me senti assistido por um instante... Sutilmente, Zé Ponteiro, o matuto, diz: “acorda seu moço, durmino de zói aberto?” (risos). A prosa continuou adentrando a madrugada. O café não era mais necessário. As histórias do matuto estimulavam e afastavam o sono. Numa das passagens quando tropeiro, disse ter perdido um boi precioso. Em desespero, nem se lembrou dos santos e fez uma oração diretamente a Deus, pedindo que fizesse o “marrudo” aparecer. E deu certo: ao usar o berrante num toque chamado “estradão”, pôde avistar em noite de lua cheia o animal saindo da mata e aceitando o convite do berranteiro em seguir a comitiva. Como disse, matutar o ‘matuto’ não é nada simples, porém é surpreendente. Seu exemplo de vida é contagiante, faz com que nos livremos de toda empáfia. Experiências assim fazem a vida valer a pena... Ainda mais quando descobrimos que o segredo do contentamento que preenche o vazio está na simplicidade das coisas... RICARDO VERÍSSIMO JÚNIOR é funcionário público e integrante do Conselho de Leitores do Comércio da Franca.

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