É lamentável que nós, brasileiros, leiamos nos noticiários que somos campeões no ranking mundial de turismo sexual e de pedofilia. Também somos os primeiros em índices mais inofensivos, como o de membros e número acessos ao site de relacionamentos Orkut; no consumo dessa falácia denominada “novelas mexicanas” e, igualmente, na deglutição de programas televisivos no formato reality show e isso não é privilégio dos estratos sociais menos favorecidos: uma fatia expressiva da população em tese esclarecida, que dispõe de recursos para pagar TV a cabo, exercita seu sadismo e voyeurismo em programas como Hell’s Kitchen do GNT, em que o chef de cuisine Ramsey humilha e detrata aprendizes e candidatos a chef de hotéis e restaurantes estrelados. Temos, nesse formato, O Aprendiz; a Supernanny; Troca de Famílias e por aí vai.
Esse jeito reality, pretensamente documental, de fazer TV foi inaugurado pela produtora holandesa Endemol, criadora do Big Brother que, afinal, é, de novo, no Brasil, a bola da vez, suscitando as paixões que, segundo Pedro Bial, apresentador do programa, podem ser tanto as de amor quanto as de ódio. Mas, quando disse isso, ele se referia aos participantes do programa, conclamando seus telespectadores ao voto telefônico que rende dividendos financeiros à Rede Globo.
O que se coloca aqui em questão é a longevidade desse tipo de atração, que já segue em sua oitava edição e as transformações observadas desde a sua estréia e, até aqui, desfigurada no que poderia ser categorizado como espetáculo teatral de qualidade duvidosa.
Em primeiro lugar, um programa como o Big Brother não pode ser descrito como aquele que mostra a realidade e, sim, um produto de entretenimento de massas que cria uma realidade que em outras circunstâncias não ocorreria. Assim, reality show parece um conceito defasado para tentar definir o que se dá ali.
Como num laboratório em que se busca controlar as variáveis com objetivos claros, pessoas que passaram por precisos instrumentos de seleção são confinadas com vistas à quebra da privacidade e exposição total diante dos telespectadores, donde se arbitraria o frescor e a espontaneidade no viés reality do show em questão.
Ocorre que, após oito edições do mesmo programa, é razoável supor que todos os truques de edição explicitados aos telespectadores, que os objetivos subliminares da direção do programa, ávida por pontuação no ibope, o mínimo de espontaneidade daqueles que se sabem filmados em todos os ângulos, já foi para as cucuias. A tentativa de cumprir a metáfora do “zoológico humano” não se perfaz. Antes, é a dramaturgia mesma da exclusão. Primitiva, como aquela praticada pelos gladiadores na Roma Antiga observados por platéia sedenta de sangue.
Ali, tudo parece calculado. Caras, bocas, bíceps, tríceps à mostra, a exaltação histriônica do hedonismo de ocasião, como se a vida fosse uma festa sem fim, ilusão muito apropriada, aliás, aos propósitos das cervejarias e destilarias patrocinadoras: nunca se viu, em TV, tanta bebedeira, tanta exaltação ao estado etílico num horário em que crianças e adolescentes com pais desavisados ou ausentes assimilam comportamentos diante da TV. Um mundo que privilegia a embriaguez dos sentidos, a narcotização dos julgamentos. Nunca se viu, talvez nem mesmo no helenismo da Grécia Antiga, tanta glorificação do eu; tanto enaltecimento do si-próprio, corpos malhados dançando solitária e sensualmente para câmeras a eles invisíveis mas presumíveis, todos numa aura evanescente, em que o sujeito vale mesmo pelo que ele aparenta ser, só corpo, então. Uma existência na exterioridade, um mise-en-scène perpétuo na imediatez do aqui-agora.
Trata-se de um “theater” show, em que os participantes se ficcionalizam a si mesmos, de um lado, em busca de desempenho favorável e ascensão social (atenção para o personagem politicamente correto e oriundo das minorias que conta pontos, vide o histórico dos vencedores do programa), de outro, pode-se especular, para lidar com a angústia da ausência de privacidade, numa relação algo ambígua, partindo da idéia de que na sociedade narcisista e do espetáculo em que vivemos, o eu só parece se constituir na escopofilia, a partir do olhar alheio. O eu como um simulacro a ser exibido, bem encaixado em categorias: de novo, sempre os mesmos personagens - o gay bonzinho; a fofoqueira maledicente; o bad boy que articula por baixo dos panos; o anódino; a burrinha carismática; a gostosona sem conteúdo; o troglodita tatuado. Todo mundo em busca da fama borbulhante sem mérito, talento ou qualquer feito notável que a justifique.
Ainda assim, as mesquinharias, as baixezas, as traições, os ressentimentos e as picuinhas acabam sublinhadas, no que de cruel há na vida posta em cena, em superexposição, num momento particular da história humana em que público e privado quase não mais se distinguem.
O Big Brother espelha e estimula os valores gasosos que orientam a sociedade atual. Teatro tosco do real que ao prescindir da elaboração da arte em suas expressões possíveis, torna-se um espetáculo pobre e empobrecedor.
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