Que mulher nunca pensou em sair de casa com as mãos livres de uma bolsa? O problema em deixar o acessório é não ter onde guardar o batom, rímel e documentos. Ao mesmo tempo, qual homem não gostaria de nunca mais ter que guardar no bolso os grandes aliados da mulher? Valdênio Elias Donzeli, 38, utilizou seus conhecimentos de designer em calçado e, com criatividade, solucionou o problema que incomodava tanto a ele quanto sua mulher: desenvolveu uma sandália com gaveta.
O produto rendeu a Valdênio um prêmio no concurso da Festa “Sapato, Café e Basquetebol”, promovido pelo Shopping do Calçado, em 2007, e ficou exposto até janeiro no Museu do Calçado. Agora, o designer estuda propostas para vender a idéia.
Os componentes utilizados na sandália são tradicionais. Salto anabela feito com madeira de pinho. A diferença das demais que estão no mercado fica por conta da gaveta. Num teste para verificar o que daria para guardar, a reportagem conseguiu colocar, nos dois pés, um documento dobrado, um par de brincos, um batom pequeno e um preservativo.
Valdênio disse que a idéia em criar uma sandália com salto surgiu quando foi a um bar com a mulher e ela pediu para que ele guardasse seus objetos no bolso. “Incomoda demais. Se elas usarem a sandália, terão ainda mais independência”.
O designer não foi o único a ter idéias inusitadas. O professor em design do Senai (Serviço Nacional da Indústria) de Franca, Walter Vicente Ferreira, queria participar do Prêmio Top de Estilismo, da Francal - uma das maiores feiras calçadistas do País - de 2006, mas não sabia o que criar. A inspiração surgiu após ir ao dentista e sentir o conforto da cadeira com massageador. “Na hora pensei: ‘é isso’”. Deu certo. Walter criou um sapato com massageador e foi um dos vencedores do prêmio.
A invenção consiste em um sapato com sola de borracha, e uma máquina adaptada que, com um botão na altura do peito do pé provoca vibração até a sola. O dispositivo pode funcionar à pilha ou bateria, do mesmo modelo utilizado em relógios de pulso.
O designer diz que não calculou o custo do produto, mas acredita ser viável sua produção em escala. “Temos algumas empresas interessadas na idéia. Estamos estudando”.
A criatividade de Walter já havia lhe rendido o primeiro lugar no Prêmio Top de Estilismo de 2004, quando ele criou um sapato para deficientes visuais. O calçado, com sensor nas pontas dos dedos, dispara um sinal sonoro caso se depare com obstáculos: degraus, pedras, paredes.
O produto, no entanto, não é viável para a produção em grande escala. Embora agregue componentes tradicionais, o sensor é importado e o custo é alto. Na época em que confeccionou o calçado, Walter pagou R$ 300 pelo sensor. “Pode ser que existam sensores do tipo mais baratos no mercado, mas ainda não pesquisei”.
Se o calçado que Walter inventou pode sair caro, o mesmo não se pode dizer da idéia do químico Everton Lovo, professor do Senai. O sapato, confeccionado pelo designer Thiago de Melo Rosa a partir dos produtos do químico, poderá ser vendido para consumidor por R$ 90, e quando descartado em lixo comum não contaminará o solo. Ao invés do cromo - substância pesada que contamina o lençol freático - Everton utilizou titânio para curtir o couro.
Nos demais componentes do calçado, também foram utilizados materiais biodegradáveis. O forro, por exemplo, foi feito com tecido em malha de bambu. O solado é de látex natural. A cola utilizada é à base de água e a linha de costura, de algodão. Um curtume de Franca já está curtindo o couro com titânio e há empresas fabricando com o produto.
O sapato ecologicamente correto do químico Everton e do designer Thiago ganharam medalha de ouro no prêmio Inova Senai de 2006. O concurso da instituição teve inscritos mais de 90 trabalhos inéditos de alunos e docentes.
Geraldo Ribeiro Filho, proprietário da Opananken, primeiro a inventar um calçado fora dos padrões tradicionais, o antiestresse, acredita que as idéias devem ser colocadas em prática, mas avisa: “É preciso criar um conceito. Quem faz um par apenas para mostrar, às vezes não consegue fazer mil iguais”.
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