<p>Antes de qualquer coisa, ao ler esta entrevista, não sinta pena, nem dó. De todos os sentimentos, estes são os que o escritor Fabrício Silva Rodrigues, quase 27 (faz aniversário nesta segunda, dia 25) - declaradamente abomina. Fabrício sofre da distrofia muscular de Duchenne, mal genético que só atinge meninos e é passado pelo cromossomo X, que vem da mãe. Aos poucos, seus portadores perdem a força muscular e o movimento de pernas e braços. Outros órgãos vão definhando até que o mal enfraquece pulmão e coração. Tudo isso leva inevitavelmente à morte precoce. Com 26 anos, Fabrício pode ser considerado um vencedor: a grande maioria dos portadores não chega aos 20 anos.<br /><br />A história do jovem é triste. Maria de Fátima Silva e Rui Rodrigues tiveram três filhos - todos com algum tipo de limitação. O irmão de Fabrício, Rodrigo Eleandro Silva, tinha 21 anos quando morreu, há dez anos. Rodrigo também era portador da distrofia muscular de Duchenne. Sua irmã Ana Paula, 15, tem síndrome de Down. Contra todas as previsões, ele sobreviveu e publicou um livro. Em À Vida, lançado no teatro do Sesi, no penúltimo sábado, 16, Fabrício deseja retratar em suas crônicas entre tantas coisas o prazer de estar vivo. O que por si só é uma conquista para qualquer um, com ou sem necessidades especiais.</p><p><br />Mas como não pensar na sua vida, ao ler a história da família de Fabrício. Tem como ser jornalista, não se envolver? Bom, não consegui, especialmente quando escutei a respiração ofegante ao falar e o torpedo de oxigênio, essencial para manter sua vida. Como ele mesmo disse: “Não posso me fadigar, pois isso prejudica e acelera a degeneração muscular”. </p><p><br />Apesar disso, a alegria de viver e a vontade de permanecer ativo emociona. “Sou uma pessoa que luta para viver o melhor possível e poder realizar minhas necessidades, extrair o melhor de mim e da vida, sou otimista, sonhador, inseguro, tímido, tranqüilo e feliz, embora enfrentando muitas dificuldades”, se auto-analisa. <br />Depois que terminei meu bate-papo com Fabrício, precisei ir até o banheiro enxugar os olhos, e acreditei que, pelo menos hoje, não reclamaria mais de nenhum problema. Quem sabe o leitor faça o mesmo. </p><p><br />A próxima batalha de Fabrício acontece hoje, na livraria Universo Cultural, no Franca Shopping, às 16 horas. “Estarei recebendo as pessoas e autografando meu livro”, disse. Ele também é responsável pelo site www.semeandoesperancas.com.br. Se você quiser se comunicar com Fabrício basta lhe escrever para fabricio.sr@hotmail.com.</p><p><strong>Comércio da Franca - Quando começou a escrever?<br />Fabrício Silva Rodrigues -</strong> Escrevo há alguns anos, mas no começo escrevia só para desabafar. Sonhava em escrever um livro, mas como não tinha possibilidades de publicá-lo, não escrevia com esse objetivo. No meio do ano passado, ao conhecer Luiz Cruz e Regina Bastianini, decidi levar avante o projeto de escrever para publicar. Expus a eles meu desejo e lhes mostrei uns textos que tinha. Eles perceberam que eu levava jeito e me incentivaram.<br /><strong><br />Comércio - O que o motivou a escrever o livro À vida?<br />Fabrício -</strong> O desejo de levar ao mundo uma mensagem de paz, otimismo, fé e superação. Sempre me entristecia ao ver e ouvir crueldades, confusões, ódio, miséria e guerras, enfim, tudo de ruim que há no mundo. Tudo isso me causava indignação e vontade de fazer algo. Não queria ficar de mãos atadas, assistindo de camarote ao declínio da humanidade. O caminho que encontrei para expor tudo de bom que há em minha alma e tentar ajudar o mundo, por enquanto, é o site Semeando Esperanças, que pretendo melhorar ainda mais, e escrevendo livros. Espero que À Vida seja minha porta de entrada para levar Luz às pessoas. <br /><strong><br />Comércio - Algum livro ou autor que o marcou?<br />Fabrício -</strong> Sim, dois autores: Roberto Shinyashiki, em seus livros de auto-ajuda, por tratar de assuntos essenciais da vida de uma forma direta, simples e comovente, e Fernando Pessoa, amo a forma bela como poetisa a vida, o ser, o existir e o desejar.<br /> <br /><strong>Comércio - Muitos autores utilizam a escrita como forma de extravasar. Com você é assim?<br />Fabrício </strong>- Uso a escrita para extravasar meu ser, explorar minha imensa gruta interior, para descobrir tesouros antes ocultos e, quando estou escrevendo, me sinto iluminado, comovido e aberto a sentimentos bons. Parece que o céu se abre sobre mim, tenho a sensação de meu espírito querer saltar de dentro de mim e voar. <br /><br /><strong>Comércio - À Vida é seu primeiro livro, que reúne crônicas. Qual a principal mensagem que deseja passar aos seus leitores?<br />Fabrício </strong>- Incentivar o leitor a começar a ver sua vida e suas experiências de outra forma, como vejo as minhas: belas, simples, necessárias, meios de evoluir. Mostrar que a vida é muito mais do que nossos olhos pequeninos muitas vezes conseguem enxergar. Dizer que não devemos fixar os olhos nos espinhos, galhos secos e na escuridão da noite, pois, muito além disso, há um majestoso jardim repleto de flores, com formas bem definidas, brilho e colorido; que os obstáculos são apenas um pretexto que Deus encontrou para nos aperfeiçoar; que para ser feliz não é preciso que tudo seja um mar de rosas; que uma grande parte de nosso sofrimento é criação nossa, com nossas confusões, erros e falta de equilíbrio, de emoções que acabam nos enfiando em enrascadas. Por fim, queria escrever sobre a fé em Deus, para que as pessoas tivessem fé na vida. Penso que a beleza do livro está contida nas imagens descritas poeticamente, na clareza, por passar otimismo, pela atmosfera de espiritualidade e elevação que o envolve.<br /><br /><strong>Comércio - E o processo de escrita, tanto a inspiração quanto o físico - a distrofia lhe impõe limitações?<br />Fabrício</strong> - Antes de começar a escrever, sempre fazia uma oração, pedindo inspiração para que conseguisse extrair de mim o melhor. E colocava uma música suave para relaxar e as inspirações iam e vinham. Há a dificuldade física, imposta pela limitação da distrofia. Tenho movimentos restritos, lentos, e não posso me cansar, pois isso prejudica e acelera a degeneração muscular. E a posição em que mais escrevo, deitado na cama, torna minha mobilidade ainda mais restrita. Tudo isso torna o processo demorado e cansativo. Outra dificuldade foi encontrar as palavras que expressassem exatamente tudo o que sentia. Era complicado conciliar sentimentos e emoções com o raciocínio lógico.</p><p><br />Quando deixava um texto para terminar no outro dia, nesse intervalo, vinha inspiração para mais três. Anotava o que pensava para depois abordar o assunto. No fim de cada texto, tinha a sensação de que não havia passado toda energia e beleza que vislumbrava. Sempre achava que faltava algo. Mas depois, relendo com calma, percebi que os textos ficaram bons, claros e coerentes.Todas as dificuldades são vencíveis. Os reais limites quem impõe, não só a mim, mas a todos os deficientes físicos, são outros. A falta de oportunidades, o descrédito das pessoas e a falta de apoio. Uma prova disse sou eu! Quando eu não tinha o computador, porque ninguém me ajudava a comprá-lo - não acreditavam que fosse capaz de aprender - não produzia nada. Se não fossem Luiz Cruz e Regina, não seria escritor.<br /><br /><strong>Comércio - É preciso usar meios especiais para escrever? <br />Fabrício -</strong> Escrevo usando somente um dedo, manuseando o mouse, pois digito somente pelo teclado virtual que aparece na tela e digito letra por letra com a seta do mouse. </p><p><br /><strong>Comércio - Franca tem estrutura para os portadores de deficiência? <br />Fabrício -</strong> Franca ainda precisa de muitas melhorias. Embora nos últimos anos algumas coisas tenham sido feitas, elas não são suficientes. Um exemplo disso é o transporte adaptado, que não dá conta de atender ao grande número de deficientes que dele necessitam. E esse transporte deveria funcionar aos domingos. Também muitos lugares públicos ainda não têm rampas. Às vezes há rampa no estabelecimento e não nas sarjetas. Na última vez que fui à UBS do Ângela Rosa, ainda não havia rampa na sarjeta, só na parte interna, o que dificulta o acesso.<br /><br /><strong>Comércio - Como é o dia-a-dia dos portadores da distrofia de Duchenne? E as pessoas ao redor?<br />Fabrício </strong>- A rotina de um portador é muito complexa. Quando ainda não parou de andar é mais independente, mas quando se perde a mobilidade é preciso cuidado integral, pois não se consegue exercer nenhuma atividade sozinho. É preciso ajuda em tudo. Para quem cuida, exige muito tempo e dedicação, a maioria das mães abre mão de suas próprias vidas para se dedicarem aos filhos, pois nem sempre contam com ajuda. No caso de minha mãe é ainda pior, porque minha irmã [que tem síndrome de Down] também necessita de cuidados.<br /><br /><strong>Comércio - Você cursou escolas públicas. Terminou o colegial? Como é a sua vida acadêmica e a aprendizagem?<br />Fabrício -</strong> Nem cheguei a terminar a 1ª série do ensino fundamental. Abandonei a escola porque sofria preconceito por parte dos alunos e resolvi buscar o conhecimento por conta própria. Em meu processo de aprendizagem, contei com a ajuda de meus primos, o conhecimento de informática consegui sozinho. <br /><br /><strong>Comércio - E como é um dia na sua vida?<br />Fabrício -</strong> Acordo às oito horas da manhã, minha mãe me dá café, faz minha higiene pessoal, têm que ser feitos os exercícios físicos e fico no computador uma grande parte do dia. É preciso mudar minha posição inúmeras vezes, pois sinto dores se ficar muito tempo do mesmo jeito. À noite, antes de dormir, vejo TV. Gosto muito de sair, mas não saio com freqüência.<br /><strong><br />Comércio - Além de escrever, você tem outros passatempos?<br />Fabrício </strong>- Bater papo na internet, ler, ver TV, ouvir músicas e recebo muitas visitas.</p><p><br /><strong>Comércio - A solidão o assusta?<br />Fabrício </strong>- Tenho medo da solidão, pois convivi com ela por muitos anos e sofri muito, mas faz alguns anos que as coisas começaram a mudar. Gosto sempre de ter amigos por perto. <br /><br /><strong>Comércio - Tem medo de morrer? Escreve para enganar a morte?<br />Fabrício -</strong> Sim, mas acredito que todos tenham medo de morrer, até porque a morte é algo desconhecido. Eu peço sempre a Deus que me dê ao menos tempo de escrever muitos livros e deixar minha marca na humanidade. Tento não olhar para a perspectiva de tempo de vida que os portadores de Duchenne tiveram, até porque nos últimos anos esse tempo tem aumentado com o avanço da medicina, com o uso do Bipap (aparelho que uso para ajudar a respirar), pois muitos faleciam cedo por falência respiratória, e todos, independentemente de ter ou não distrofia, estão sujeitos à morte repentina a todo instante. Outro aspecto da morte que me causa receio é querer continuar cuidando de minha mãe e minha irmã, porque de certa forma cuido delas, pois o mais sensato psicologicamente e intelectualmente sou eu, sempre vivo buscando alternativas e acalmando minha mãe quando está desesperada, sendo, assim, o porto seguro delas. <br /> <br /><strong>Comércio - Como foi o lançamento de seu livro?<br />Fabrício -</strong> O lançamento foi maravilhoso. Fiquei encantado com tudo que apresentaram no palco. Fiquei feliz pelo público ter recebido com bom grado minha semente e ter lotado o teatro. E também por ter um sonho realizado e senti o quanto sou amado. <br /><br /><strong>Comércio - A noite foi marcada pela emoção, principalmente da sua mãe. Ela é peça fundamental na sua escrita?<br />Fabrício</strong> - Minha mãe se emociona demais quando fala de minhas conquistas. Ela sente muito orgulho e percebe que seu empenho não tem sido em vão. E ela se emociona também, pois queria que meu irmão estivesse aqui fisicamente compartilhando deste momento.<br /> <br /><strong>Comércio - Já tem em mente um segundo livro?<br />Fabrício </strong>- Sim, já comecei a escrever algumas coisas. Quero que o segundo seja ainda melhor, pelas idéias que têm surgido. Acredito que conseguirei me superar ainda mais. Estou tendo que passar por alguns problemas devido às mudanças físicas impostas pela progressão da distrofia e mudanças da vida mesmo, mas, assim que me reorganizar, vou acelerar a escrita, pois quero produzir em série. <br /></p>
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