Erros


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N ão há ninguém totalmente puro nem existe quem seja absolutamente corrompido. Toda pessoa tem virtudes e defeitos, errar é humano, etc. e tal. A gente sabe disso, embora se lembre com muita facilidade quando se trata de querer justificar os próprios erros e com certa dificuldade na hora de aceitar os erros alheios. É comum rotular alguém negativamente, de forma indelével, por um ou mesmo por vários erros que já deveriam ser considerados diluídos no mar de acertos praticados por esse mesmo alguém. Quando deságua no mar, o rio vira mar. É preciso superar a propensão a se lembrar dos erros e ignorar os acertos. O que distingue a boa pessoa é a sua capacidade de fazer suas qualidades triunfarem sobre suas fraquezas. Montaigne, no livro I de Os Ensaios, diz: “Na verdade, é correto que se faça grande diferença entre as faltas que provêm de nossa fraqueza e as que provêm de nossa malícia. Pois nestas tendemos cientemente contra as regras da razão que a natureza imprimiu em nós; naquelas parece que podemos invocar como defesa essa mesma natureza, por nos ter deixado tão imperfeitos e falhos”. Ante a natureza falível do ser humano, pergunta-se: até onde lhe é permitido errar? Acho que cada um tem seu ponto de vista quanto a isso. De minha parte, penso que, dada a capacidade de raciocinar, a pessoa deve procurar manter seus atos dentro de uma órbita em que eventuais erros sejam passíveis de reparação. Não é porque se é falível que se pode ultrapassar certos limites. Não pode reclamar do julgamento alheio quem se deixa levar pela habitualidade delitiva, pela reiteração de condutas insensatas, pelo deliberado desprezo aos valores humanos. O ser humano precisa ter a consciência de que certos atos são tão atrozes que violam os mais elementares princípios do direito natural, e por isso não devem ser praticados, por mais que seja difícil resistir à tentação. Já imaginaram como seria melhor o mundo se bens sagrados, como a vida e a integridade física, fossem respeitados? Para o ser dotado de inteligência, não é pedir muito. Corromper-se por ganância, desviando dinheiro em prejuízo de tantos necessitados, não condiz com o ser humano. Para quem se vende assim, a falibilidade humana não pode ser invocada; ela explica, mas não justifica. Criticam-se fingidas manifestações de virtude, a tal da hipocrisia, mas é bom não se precipitar. Uma boa ação tem seu valor e não perde o sentido, seja praticada por uma pessoa de bom coração ou por um bandido; o bom conselho é benéfico mesmo se dado por quem não pratica o que fala. Prefiro um sorriso falso a uma ofensa verdadeira. Se a pessoa, com o fim de preservar a convivência no nível da civilidade, se esforça para sorrir e consegue vencer a vontade de ofender quem ela odeia, pratica uma virtude. Antes de “descer a lenha” nos outros, é bom pensar um pouco e ver se a gente está em condição moral de fazê-lo. Antes de querer consertar o mundo, melhor limpar o próprio quintal. Esforçar-se para não violar regras de convivência, mínimas que sejam, é obrigação de toda pessoa. Alguns erros são compreensíveis na juventude porque há coisas que só se percebe com o tempo. Com o passar dos anos, a pessoa tem o dever de se lapidar, tornar-se mais afável, aprender a conter os impulsos. Livre não é quem faz o que bem entende: é quem reduz os problemas em vez de ampliá-los, tem leveza na alma. Controlar os movimentos com acuidade, manter os intentos no campo da paz e da verdade, ter ânimo benfazejo, em todos os momentos agir com serenidade, isso é o que traz o bafejo dos ventos. Os ventos da liberdade. Paulo Pereira da Costa é promotor de Justiça e autor do livro Pensando na Vida (disponível na Livraria Martins). E-mail: paulopereiracosta@uol.com.br

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