O relógio marcava zero hora, mas em cumprimento ao Decreto presidencial deveríamos atrasá-lo em uma hora – e foi assim, na madrugada do último sábado para domingo. Ele veio, ele foi, mas em breve voltará. Unânime? Nem pensar! Em se tratando do horário de verão a diversidade de opiniões tem gerado polêmicas.
Dizem que a mudança do fuso serve para a redução do consumo e que se economizaria em torno de 4% do potencial energético de nossa amada Pátria; mas também serve para que eu me aprofunde numa questão interessante: o homem como “senhor do tempo”.
Sempre pensei que apenas Deus tinha esse poder, mas eu estava errado. A criatura-pensante posta por Ele sobre a terra avança na sabedoria e na ciência e as usa para o bem ou para o mal.
Os que estavam acordados e atrasaram seus relógios no domingo puderam experimentar a sensação extasiante que foi. Já era domingo quando foi feita a intervenção “temporal” trazendo de volta o sábado num simples girar dos ponteiros dos relógios... Seria então, possível, escrever ou reescrever a história de nossas passageiras vidas com esse “retorno” no tempo? Tentar novamente algo que não deu certo e, voltando no tempo, obter nova oportunidade de acerto? Poderia significar mais uma hora se a morte tivesse usado aquele tempo para nos pedir a alma? Mais tempo para os devaneios das baladas? Assistir aquele filme? Ficar mais tempo com a pessoa que amamos? É. Seriam inúmeras as possibilidades. Mas e se tivéssemos a condição de voltar além de uma hora... Horas... Dias... Meses... Anos... Nossa! Contenhamos o frenesi!
Conheço alguém que daria tudo para consertar algumas coisas se pudesse voltar no tempo, o elegi como exemplo, mas preservo sua identidade. Esse homem, produto de trajetória existencial que deu forma à pujança de seus negócios, renunciou ao trivial da vida no apogeu de sua energia. Atualmente com 8 anos, pálpebras cansadas e olhar deprimido, deixa visível que a privação de momentos preciosos e perdidos produzem profunda melancolia e dias enfadonhos.
Sua demasiada dedicação para erigir patrimônio talvez não tenha valido tanto a pena. Afinal, tanta obstinação em estender domínios para um corpo que viverá 70, 80 ou com muita sorte, 90 anos, de repente descobre quão tarde já é para usufruir a vida. A ambição e o dinheiro são ainda os vilões que mais vitimam.
Para este homem, se o relógio girasse ao contrário e o calendário acompanhasse, haveria sim uma intensa revolução. Libertar-se-ía daquilo que se assenhorou de sua vida.
Embora inúmeros exemplos do tipo estejam à nossa volta, quase nunca paramos para refletir que o ‘tempo’ não perdoa, é implacável, não se corrompe e nem negocia. A nossa vantagem, quanto ao tempo, não passa de uma hora, uma vez ao ano, tempo ínfimo para consertos; e ainda por força de decreto.
RICARDO VERÍSSIMO JÚNIOR é funcionário público, ex-integrante do Conselho Municipal de Saúde e integrante do Conselho de Leitores do Comércio da Franca
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