Para desespero da esquerda cucaracha, a renúncia de Fidel Castro enseja um debate incontornável sobre a trajetória do homem que tiranizou Cuba durante quase meio século.
Em 1953, após liderar o fracassado ataque guerrilheiro de seus comparsas ao Quartel de Moncada, Fidel desafiou o tribunal que o julgava por esse crime declamando sua frase mais célebre: “A História me absolverá!”. Embora condenado, Castro foi beneficiado dois anos depois por uma generosa anistia - a mesma anistia que mais tarde negou aos 17 mil cubanos fuzilados por ordem sua, durante a ditadura socialista tão decantada pela nossa comunalha de salão.
A História, como bem sabemos, não absolveu o “Ogro do Caribe”, que em 49 anos de opressão marxista reduziu Cuba à condição de miserável ilha-presídio, onde guardas vigiam todo o litoral dia e noite para que a população não fuja nadando do “paraíso” vermelho prometido por Fidel em 1959, quando conseguiu derrubar o governo, trocando a ditadura de Fulgêncio Batista pela sua própria ditadura. Todos lembram do desafio lançado por Che Guevara em 1961: “Em 10 anos, superaremos o padrão de vida dos EUA”. Décadas depois, ninguém ignora que Cuba, 4º país mais rico da América Latina em 1959, é hoje o 4º mais pobre, ao ponto de a prostituição haver se tornado uma verdadeira indústria das jineteras, enquanto a desnutrição causa endêmicos problemas de vista na população.
Alegam as esquerdas que a desigualdade social caiu. Mentira! Só aumentou, tornando intransponível o fosso existente entre a massa dos súditos e a alta burocracia do Partido Comunista. Não é por acaso que Cuba possui duas moedas: o peso comum e o peso conversível - este com valor 25 vezes maior, mas reservado aos turistas e burocratas. Ninguém desconhece esses fatos, exceto aqueles que, por cinismo ou ingenuidade, bradem as estatísticas forjadas pela camarilha genocida encastelada em Havana. Alegam também as esquerdas que Cuba tornou-se “independente” após a Revolução. Outra mentira! Cuba deixou de ser um protetorado americano para se tornar um servil satélite de Moscou, tanto é que o fim da ajuda soviética precipitou a nação caribenha numa recessão que se arrasta até hoje.
Convém recordar que o farto auxílio econômico e militar da URSS a Cuba não foi utilizado por Fidel apenas dentro da ilha, mas fora dela. Não satisfeito em seqüestrar seu próprio povo, o ditador financiou, treinou e armou guerrilhas comunistas em quase todos os países da América Latina, inclusive no Brasil, conforme comprovou a historiadora Denise Rollemberg. O patrocínio de Havana a terroristas de esquerda no Brasil começou em 1961 e persistiu até 1974, quando o Exército finalmente logrou derrotar os insurretos armados - e, diga-se de passagem, os militares cumpriram seu dever, pois estavam defendendo a Pátria contra as investidas do comunismo internacional, felizmente repelidas nas muralhas de nossos quartéis. O mesmo apoio dado por Cuba aos assassinos da ALN e da VPR no Brasil foi dado aos Montoneros na Argentina, à FPMR no Chile, ao ELN na Bolívia e assim por diante, numa descarada violação da soberania alheia - o que destitui Fidel de qualquer suporte moral para condenar a interferência do “imperialismo americano” na região.
Ainda assim, há em nosso País quem se pronuncie em defesa de Fidel Castro e seus congêneres - Stálin, Mao Tsé-Tung, Pol Pot, Idi Amin e outras aberrações genocidas. Curiosamente, os defensores dessa laia são as mesmas pessoas quer preferem a bandeira vermelha à auriverde bandeira nacional. Certa vez, quando ainda era calouro da Unesp-Franca - onde é chique se disfarçar de pobre -, fui convidado a participar de uma passeata do movimento estudantil.
Recusei, e não me arrependo, pois na manifestação só escutava “vivas” a Cuba e à China - nenhum mísero “viva” ao Brasil. Nas paredes do Diretório Acadêmico só havia cartazes de Fidel e Che Guevara - nenhum de Tiradentes ou Caxias. Os defensores de Fidel fazem parte daquela categoria designada por Nelson Rodrigues como “unanimidade burra”, que prefere os chavões aos argumentos, os panfletos aos livros, o totalitarismo à democracia. Nem o rotundo fracasso do socialismo no Leste Europeu, nem os cinqüenta anos de empobrecimento e tirania na ilha-presídio cubana convencem essa gente. Há anos atrás, Fidel ordenou o fuzilamento de três dissidentes. Diante disso, o escritor comunista José Saramago, candidatando-se ao Prêmio Nobel do Cinismo, afirmou que dali para frente romperia relações com o ditador, pois ele havia passado dos limites. Então Saramago não sabia que outros 17 mil haviam sido metralhados nas décadas anteriores? Só agora ele descobriu? Outros socialistas de boutique, a bem da verdade, foram mais cínicos ainda e preferiram a cumplicidade ostensiva ao silêncio envergonhado. Foi o caso de Chico Buarque, que assinou um manifesto em defesa das execuções. Sim, o mesmo Chico que compunha cantigas de protesto contra o Regime Militar - o que mostra quão seletiva e hipócrita é a indignação da esquerda tupiniquim.
A tardia renúncia de Fidel, embora encerre uma era e sepulte um mito, não encerra a longa noite do sofrido povo cubano, que “daria o braço direito para mudar essa merda”, como desabafou um pedreiro entrevistado recentemente pela Agência AFP. O governo continua nas garras dos comunistas, agora encabeçados por Raúl Castro, membro caçula dessa peculiar dinastia. Entretanto, o episódio torna indisfarçável o lento apodrecimento da ditadura, cujo crepúsculo já se descortina no horizonte.
EDUARDO LUCAS DE VASCONCELOS CRUZ é bacharel em Relações Internacionais e mestrando em História pela Unesp, bacharel em Direito pela FDF e Editor-assistente do Comércio da Franca
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