Quando eu fecho os olhos e penso nele, a primeira lembrança que tenho é da sua voz gritando ‘Oi, paixão’, seguida da sensação boa de um abraço apertado, desses que fazem com que os pés saiam do chão. Em seguida, lembro do sorriso. Sorriso gostoso, doce.
Sorriso sempre. Afinal, a alegria do Caio parece nunca acabar. Contagia aqueles que estão por perto e faz com que as pessoas sejam um pouco mais felizes.
Mas a voz que eu ouvi ao telefone nesses dias não era de um menino feliz. Era a voz de um garoto assustado. Era a voz de quem levou uma grande rasteira da vida. Rasteira que veio na forma de um carro, um posto de gasolina, um outro ser humano e uma tremenda tragédia.
Antes de mais nada, vamos deixar uma coisa bem clara: o Caio errou. Errou feio. Um erro que vai marcar muitas pessoas pelo resto da vida. Mas um erro não é suficiente para revelar quem são as pessoas. Um erro revela que são apenas pessoas. E as pessoas não são feitas só de erros. São feitas também de acertos. São feitas de emoções. De idéias. De atitudes. De pequenos gestos do dia-a-dia.
Então por que temos essa tendência a reduzi-las aos seus erros? Será que é porque nós mesmos não erramos? Não posso falar por mim.
Eu errei. Errei muito. E errei feio. Certamente, vou continuar errando ao longo da vida. E pergunto: o Caio e eu somos as duas únicas pessoas do mundo que erram? É esta a razão pela qual todas as outras se sentem no direito de nos julgar e nos condenar?
Tenho lido muitos desses julgamentos nos jornais, ouvido nas rádios, visto na TV. E sempre me pego pensando em como a mídia é eficiente. E como a sociedade é influenciável. Afinal, criaram uma personagem e saíram vendendo-na pelas ruas. E as pessoas têm comprado. E aí eu me questiono: como podem acreditar que conhecem tão bem um menino que nunca viram, nem ouviram e nem tocaram? Como podem se iludir achando que sabem tudo sobre um garoto sem ter-lhe perguntado quais são seus valores e sonhos, o que ele busca e em que acredita?
Eu perguntei. Eu o vi, ouvi e toquei. Não por um dia, mas durante toda a vida. E por isso acredito muito mais na minha opinião do que nessas que andam dizendo por ai. Sei que muita gente não se interessa. Outras tantas vão fingir que não escutam. Muitas vão querer contra-argumentar. Mesmo assim, vou dizer qual é a minha opinião: Ele não passa de um menino. Tão menino quanto qualquer um dos meus outros irmãos. Tão menino quanto a maioria dos meus amigos. Um menino doce e carinhoso. Que sempre quer saber como foi o meu dia e que ouve com atenção as minhas respostas. E que, muitas vezes, só de me olhar soube dizer o que eu estava sentindo.
Que me apoiou até nas minhas maiores invenções. E que buscou meu apoio em suas principais empreitadas, entrando de mala e cuia na minha casa e na minha vida quando eu disse que estava do seu lado. E assim, acabou fazendo parte de todos os meus dias durante um ano inteiro.
E nesse período, ele me abraçou muito, me deu colo e carinho. Me viu chorar e me ouviu gritar. Solucionou os meus problemas e arrumou meu carro. Me fez cafuné assistindo filme. Dividiu comigo seus sonhos, suas angústias e seus chocolates. Me deu o maior amor do mundo. Pois é isso que ele carrega dentro de si: o maior amor do mundo.
Diante de tudo o que aconteceu nos últimos dias, reaprendi a rezar. Rezo por muitas coisas. Rezo pela saúde do moço que está no hospital. Rezo pela justiça que existe nos delegados, promotores, advogados e juízes. Rezo pelo bom-senso da sociedade. Rezo para que nós, seres humanos, enxerguemos que somos apenas seres humanos. E rezo muito por aquele amor. Para que ele seja forte e consiga sobreviver a um coração partido.
Caio. Paixão. Meu irmãzinho. Eu sim te conheço. Eu sim sei quem você é. E é por isso que estarei sempre ao seu lado. É por isso que você tem o meu apoio e minha confiança. É por isso que eu colocaria a minha vida nas suas mãos.
Amo você para sempre. Um beijo grande.
Larissa Lancha Alves de Oliveira é amiga de Caio Meneghetti Lombard
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